Kil Abreu deixa curadoria teatral do Centro Cultural São Paulo e critica gestão de Leandro Lehart “desrespeitosa”

Publicado em 28/5/2021
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O jornalista, crítico e pesquisador teatral Kil Abreu deixou, na noite desta quinta-feira, 27, a curadoria dos espetáculos e projetos teatrais do Centro Cultural São Paulo. Abreu esteve à frente do cargo por oito anos e, em sua gestão, encabeçou projetos vitoriosos, como a Mostra Dramaturgia em Pequenos Formatos e a reativação do Espaço Cênico Ademar Guerra, no porão do espaço.

Em sua gestão, Abreu promoveu também uma renovação das plateias do CCSP, abrindo espaço para diferentes linguagens cênicas, desde o teatro do absurdo (com a bem sucedida montagem de Chá e Catástrofe, de Caryl Churchill) até o teatro musical (com a incensada encenação de Gota D’Água [Preta]), entre outros.

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Em texto publicado em seu perfil oficial no Facebook, Abreu criticou o início da gestão do músico Leandro Lehart à frente da diretoria do Centro Cultural São Paulo e chamou a atenção para o fato de que não houve nenhum tipo de diálogo com o músico, que pediu o cargo por meio de um assistente.

“Infelizmente não posso dizer o porquê da dispensa. É que o diretor – um músico “popular”  vindo do samba-pagode (eu não o conhecia,  e isso me entusiasmou demais, escrevi aqui, mas  continuo não conhecendo) não me chamou. Assumiu há uns dez dias mas não chamou nenhum funcionário do CCSP até este momento para falar sobre nada. Simplesmente mandou um assistente me comunicar que precisava do cargo, porque pretende ‘mudar’”, escreveu o jornalista.

“O diretor não teve uma única conversa. Gostaria de explicar como vem funcionando a curadoria, quais têm sido as diretrizes da programação, quais são os projetos em andamento, os impasses, os nossos compromissos com os artistas. Simplesmente mandou o assistente comunicar que queria o cargo. Juro que nunca vi isso”, continua.

O que desagrada o jornalista, contudo, é a falta de diálogo que pode afetar os projetos em desenvolvimento. “Acho mesmo que será excelente ter outros olhares na curadoria. Mas há um trabalho feito ali nesses poucos anos, que muito me orgulha, a mim e aos parceiros e parceiras que estiveram no apoio”.

“Por isso tudo, acho lamentável que o novo diretor, que eu não conheço e saio do CCSP sem conhecer, não tenha ao menos me olhado nos olhos para dizer um “muito obrigado”. Seria gentil. Talvez o Secretário Municipal de Cultura, que o elegeu para o posto, possa fazê-lo. Eu aceitaria esse agradecimento de coração aberto. Acho que seria justo e corrigiria essa péssima impressão de que as coisas que ele anunciou começam muito mal ali”.

Considerado “cargo de confiança”, a curadoria do CCSP é responsável pelos projetos que serão encabeçados pelo Centro e pelos espetáculos que ocuparão seu teatro. Abreu deixa a curadoria com um saldo positivo frente à fomentação de novos dramaturgos e dramaturgas na cena paulistana.

Confira abaixo o texto completo publicado pelo jornalista:

“Amigues [SIC], informo aqui em rede porque sei que muit_s [SIC] artistas e produtor_s [SIC] têm interesse, têm projetos em andamento ou em perspectiva conosco: não estou mais curador de teatro do Centro Cultural São Paulo. Como devem saber, recentemente assumiu a direção do CCSP o músico Leandro Lehart. Os cargos de curadoria são cargos de confiança e o diretor demitiu-me. É direito dele, como guardador da função pública. Acato, como deve ser. Mas Infelizmente não posso dizer o porquê da dispensa. É que o diretor – um músico “popular”  vindo do samba-pagode (eu não o conhecia,  e isso me entusiasmou demais, escrevi aqui, mas  continuo não conhecendo) não me chamou. Assumiu há uns dez dias mas não chamou nenhum funcionário do CCSP até este momento para falar sobre nada. Simplesmente mandou um assistente me comunicar que precisava do cargo, porque pretende “mudar”. Ok, que sejam bem vindas as mudanças. Eu só gostaria de entender o que é que ele pretende mudar, já que ignora o trabalho desenvolvido ali. O diretor não teve uma única conversa. Gostaria de explicar como vem funcionando a curadoria, quais têm sido as diretrizes da programação, quais são os projetos em andamento, os impasses, os nossos compromissos com os artistas. Simplesmente mandou o assistente comunicar que queria o cargo. Juro que nunca vi isso.  De todo modo, não precisava pedir, o cargo é dele (ou, corrigindo, é público, não é de ninguém). Quem está em posição de poder tem o dever de fazer disso o melhor uso, e espero que assim seja. De minha parte não tenho apego, tenho o maior respeito pela coisa pública e seus processos. Mas devo dizer que julgo absolutamente desrespeitosa, pouco republicana, a forma como essas pessoas se apropriam da coisa pública como se fosse bem privado, como se fosse o quintal da casa. Não é nenhum esforço por permanecer na função, seria apenas para explicar que ali estão acontecendo coisas importantes, em continuidade, já há um tempo. Só ia pedir a atenção dele a isso, nada mais. Porque entendo que o CCSP, o espaço público, é maior do que nós. Mas como o magno diretor “popular” não fala, só através dos assistentes, presto contas por aqui, ele talvez possa escolher o que é que quer “mudar”: 

Nestes poucos anos, quando assumi a curadoria de teatro do CCSP, promovemos a multiplicação das plateias em patamares consideráveis, não com peça caça-níquel, mas com teatro de grande qualidade, com política de acesso, com incremento da presença jovem, com estímulo às novas dramaturgias. Fizemos muitas, muitas temporadas com salas lotadas, espetáculos quase sempre frescos, nas zonas de risco da pesquisa tanto quanto das tradições do teatro. Muitos, muitos dos espetáculos estreados no CCSP (alguns sob nossa produção parcial) foram ganhadores ou indicados a prêmios. Criamos um projeto que hoje é referencial para a dramaturgia de São Paulo: a Mostra de dramaturgia em pequenos formatos cênicos (projeto indicado ao Prêmio Shell, pela “inovação  e estímulo a novos formatos de produção”). No contexto da Mostra, nosso edital montou cerca de quinze espetáculos e revelou ou consolidou autores e autoras de teatro hoje referenciais na cena. Fomentamos as cenas emergentes, abrimos discussão para a pauta identitária, as questões de gênero, a cena dos artistas negros e negras (não apenas em efemérides, mas regularmente). Em tarefa que nem seria minha, posso dizer que consegui devolver, em uma militância solitária, o Espaço Cênico Ademar Guerra (Porão) à pauta da cidade. Esteve fechado por mais de três anos.  Se aquele espaço está hoje reformado e em funcionamento deve-se a uma luta minha, que corri atrás disso sozinho, não tenho receio em dizer. Então digo aqui já que o diretor não quis ouvir: apesar disso tudo,  não tenho nenhum apego, de verdade. Acho mesmo que será excelente ter outros olhares na curadoria. Mas há um trabalho feito ali nesses poucos anos, que muito me orgulha, a mim e aos parceiros e parceiras que estiveram no apoio. Saio por um lado com esse sabor, com essa vaidade, que é a de olhar para o quadro e achar bonito, achar bacana a maneira como arregimentamos tanta gente, tantes [SIC] artistas, tantas plateias,  em torno de coisas importantes e mobilizadoras, fazendo beleza  em torno da disputa de valores em que se tornou a vida cultural. 

Por isso tudo, acho lamentável que o novo diretor, que eu não conheço e saio do CCSP sem conhecer, não tenha ao menos me olhado nos olhos para dizer um “muito obrigado”. Seria gentil. Talvez o Secretário Municipal de Cultura, que o elegeu para o posto, possa fazê-lo. Eu aceitaria esse agradecimento de coração aberto. Acho que seria justo e corrigiria essa péssima impressão de que as coisas que ele anunciou começam muito mal ali. 

Deixo aquela casa pública com a alegria de quem fez uma bagunça boa. Agradeço demais aos parceiros e parceiras da produção do CCSP, artistas, produtores e produtoras que estiveram conosco vivendo e ajudando a tirar água fresca desse chão sempre duro que é o serviço público. Praticamente sem nenhum dinheiro.  Valeu por cada dia. Tenho certeza que apesar da grosseria o diretor Leandro Lehart, que é um artista, vai chamar alguém bacana, com a atenção e a inquietação necessárias para o posto, e tudo seguirá bem.  E sigamos à vida adiante, anyway. O Kil está na pista, amigues [SIC]. Obrigado, obrigado por tudo. Gracias”.

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