Discussão sobre meia entrada reacende debate entre produtores
Discussão sobre meia entrada reacende debate entre produtores

Noticiada pelo jornal O Estado de S. Paulo, a discussão pública sobre o fim da meia entrada em equipamentos culturais – com ênfase nos cinemas, prevendo uma manutenção da receita da Ancine – lançada pelo Ministério da Economia caiu como uma bomba em grupos de produtores culturais na manhã desta segunda-feira.

Antiga, principalmente no cenário teatral, a discussão sobre o fim da meia entrada suscitou novos debates acerca do tema, que deverá render um encontro público de figuras da classe artística para discutir os benefícios e malefícios do direito dado a estudante e idosos e, em algumas capitais, a profissionais do Estado, professores da rede estadual e municipal, portadores de câncer, doadores de sangue e pessoas de baixa renda.

O Observatório do Teatro ouviu uma série de profissionais que divergem entre si da possível determinação do Ministério da Economia. A favor da medida, o produtor e diretor de musicais Tadeu Aguiar acredita que “com o fim da meia entrada para o setor cultural toda sociedade terá ingressos com preços médios mais baratos. Haverá uma verdadeira democratização do acesso”, acredita o profissional, que vê ainda a chance de uma melhor relação das produções com o público. “Os produtores voltarão a ter controle sobre sua bilheteria e poderão praticar promoções para atrair todo o público”.

A declaração de Aguiar vai de encontro a antigas declarações de nomes ligados ao teatro musical, entre eles o produtores e diretores Miguel Falabella e Claudio Botelho, que acreditam que o fim da meia entrada pode beneficiar tanto o público quanto às produções.

Por outro lado, produtores como Bruna Burkert, ligada à cena de produção cultural da periferia de São Paulo, vê com preocupação a medida que pode ser apenas “mais uma medida liberal e radical, nada próximo das discussões sobre formação de plateia há tanto tempo promovidas no setor cultural”.

A produtora ainda pondera: “É preciso primeiro saber a quem interessa dar ou receber a meia entrada. Se fosse esse um pensamento promovido pelos artistas ou produtores pareceria uma discussão justa”.

Produtora cultural e professora de gestão cultural da PUC-SP, Inti Queiroz também defende a meia entrada que, acredita, deveria ser ampliada. “Quando você acaba com a meia entrada você priva de acesso principalmente grupos que precisam estar em contato com a cultura e precisam muito desse “desconto”, estudantes e pessoas de terceira idade. E também tende a diminuir o público dos espetáculos, prejudicando inclusive as produções em termos financeiros. Boa parte dos projetos de espetáculos são subsidiados via leis de incentivo e editais. E já estamos pagando parte disso via recolhimento de impostos.  O ideal mesmo é que o acesso fosse ainda mais amplo. Esses projetos teriam que ser cada vez mais gratuitos e dar cada vez mais acesso. A meia entrada é um mecanismo de ampliação de acesso e fortalece o direito à cultura que está previsto na Constituição nos art. 215 e 216”.

Produtora, diretora e jornalista membro do júri dos prêmios APCA e Aplauso Brasil, Kyra Piscitelli vê a discussão com parcimônia, e acredita que o grande problema seja a forma que a pauta vem sendo discutida ao longo dos anos. “Quando se fala em acabar ou não com a meia entrada, a sensação é que estamos vivendo e discutindo extremos como uma torcida de futebol. Política pública não é torcida de futebol. O fim da meia entrada assombra o legislativo e executivo há anos, mas nada nunca profundo. Acredito que essa crise tem que ensinar a cultura que os fatos devem ser discutido com cuidado  e de novo não estamos fazendo isso. A meia entrada é uma forma de acesso, ela é limitada uma porcentagem, mas muita vezes isso não é respeitado. Como fazer valer a regra é ajudar quem precisa? No tempo que morei no Canadá, a meia entrada lá é um desconto estipulado de acordo com a demanda, é o melhor formato? Não sei, mas acabar e tratar um tema que leva acesso a grupos como 8 ou 80 é raso”, conceitua.

Produtor ligado à cena musical, tendo em seu currículo trabalhos com nomes como Peninha, Vânia Bastos, Selma Reis (1958-2015), João Suplicy e Maria Alcina, além de dirigir o selo Conexão Musical, Fran Carlo acredita que o momento seja prejudicial para a discussão. “No momento onde a cultura não é respeitada não é hora de tirar a meia entrada, mesmo que ela beneficie um pouco mais de gente com poder aquisitivo  definida, com poder de pagar inteira, o pouco que ela beneficia um público com poder aquisitivo menor já é interessante. Neste momento de pandemia precisamos ampliar o público. Precisamos levar esse público que nunca entrou numa casa de shows, numa sala de espetáculos, numa casa de shows para ocupar os espaços culturais. Qual a solução do poder público para isso? A solução não é tirar a meia entrada, mas levá-los a ocupar esses espaços, ter acesso a cultura”.

Parecido pensa o ator, diretor e produtor Eduardo Martini. “Agora não é hora de acabar com nada! Agora é hora de incentivar produtores, público e donos de teatro. Acabar com a meia entrada numa hora que as pessoas não têm dinheiro é suicídio, ninguém vai pagar inteira. Só se ela voltar a custar R$ 20,00, R$ 30,00. Eles pensam em acabar com a meia entrada, os valores precisarão baixar, mas e os custos de produção? Esse valor também vai baixar? É preciso pagar o aluguel do teatro, os operadores, a equipe técnica, é completamente fora de hora fazer isso”, diz.

Produtora dona da SM Produções e com espetáculos como A Profissão da Senhora Warren e A Milionária, protagonizadas pelas vencedoras do Shell Clara Carvalho e Chris Couto, respectivamente, no currículo, Selene Marinho vê a discussão como uma isenção do poder público de sua responsabilidade de subsídio. “A meia-entrada é uma grande conquista e deve ser mantida, porém o assunto é delicado. Ao instituir a meia-entrada por força de lei sem nenhuma contrapartida do Estado, sem subsidiar ou compensar o valor perdido, simplesmente colocaram esta conta para o produtor cultural. Isso gerou muitos equívocos: ingressos com valores mais altos, falsas carteiras estudantis que se consegue hoje com facilidade e ao contrário de incentivar, o público foi penalizado. Penso que o Estado, assim como faz com o setor de transporte, tem que arcar com esta conta. Há de se corrigir as distorções, não imagino que seja uma boa prática tentar retirar esta conquista, ainda mais no período que estamos vivendo”, finaliza.