Urinal O Musical | Foto: Ronaldo Gutierrez
Urinal O Musical | Foto: Ronaldo Gutierrez

Em meados dos anos 2000, a superprodução teatral Os Miseráveis abria o mercado para um novo filão que andava adormecido há mais de 30 anos. Com a encenação deste que se tornou o grande responsável pelo o que viria a ser chamado de grande momento da revitalização do teatro musical no Brasil, o país entrava definitivamente na rota das grandes obras importadas da Broadway e do West End.

Contudo, a despeito do trabalho irrepreensível de diretores como Charles Möeller & Cláudio Botelho, que encenavam obras do quilate de Company (2000), 7 – O Musical (2007) e Avenida Q (2008), todos incensados por público e crítica, os musicais em sua maioria eram apenas grandes caça-níqueis milionários que, salvo exceções, não interessavam ao júris de prêmios.

O cenário começou a mudar apenas no início desta década, em 2012, com a criação do Prêmio Bibi Ferreira, a primeira laureação voltada exclusivamente ao teatro musical. Com olhar atento para obras desde as consideradas “blockbusters importados” até as mais artesanais, a premiação criada pelo ator, diretor e produtor cultural Marllos Silva se sobressaiu como um primeiro sopro de valorização do gênero, que também passou a cobrar mais de seus diretores e atores.

Outros prêmios passaram a se delinear a partir deste primeiro, como o Prêmio Reverência, também dedicado exclusivamente ao teatro musical, mas o primeiro (e até o momento único) a avaliar produções em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro. A abrangência destas duas premiações abriu os olhos de votantes de outros prêmios como APCA e Shell, que passaram a incluir os espetáculos musicais em suas categorias.

A produção do mercado também se aqueceu com a injeção orçamentária do Sesi SP, que além dos cursos superiores de estudo em teatro musical, também produziu espetáculos unânimes na crítica e com extremo sucesso de público (com ingressos gratuitos distribuídos através do site e com uma hora de antecedência antes de cada espetáculo).

Nestes moldes foram produzidos espetáculos como A Madrinha Embriagada, (2013), O Homem de La Mancha (2015), que rendeu um Prêmio Shell a Cleto Baccic por seu desempenho como o próprio Dom Quixote, As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão (2019), que rendeu uma indicação também ao Shell à dramaturgia de Newton Moreno. 

Os musicais também passaram a ser valorizados como obras de produção artística, não apenas como facilitadores de obras mais ásperas, graças ao trabalho artesanal de artistas como Fernanda Maia e Zé Henrique de Paula, que ajudaram a dar novo gás à produção independente com a encenação de Urinal – O Musical, e Andréa Alves, produtora que deu régua e compasso para a formação da Barca dos Corações Partidos.

Em paralelo, outros nomes vem desenvolvendo trabalhos que nivelam os musicais, como Cláudio Lins, Rafael Gomes, Laila Garin e o jovem Vitor Rocha, autor dos premiados Cargas D’Água – Um Musical de Bolso (2017), O Mágico Di Ó (2018) e Se Essa Lua Fosse Minha (2019).

Ainda com a ameaça de extinguir as leis de incentivo que deram vazão a obras do tamanho de O Fantasma da Ópera (2006 e 2018), o teatro musical brasileiro, nesta década, encontrou uma linguagem própria capaz de sobreviver e criar novas formas de produção e sobrevivência.