Online, peça investiga vida e motivações de assassino de John Lennon após 40 anos

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Romance escrito pelo nova iorquino J. D. Salinger (1919-2010) em 1951 narrando um fim de semana na vida de um jovem que tenta adiar um embate familiar após ser expulso do colégio por tirar notas baixas, O Apanhador no Campo de Centeio entrou para a história como um dos principais títulos da literatura norte americana, responsável por formar uma geração de jovens entre as décadas de 1950 e 1970.

Contudo, a partir de 1980, a obra de Salinger teve sua segunda entrada na história garantida ao servir como coadjuvante no assassinato de um dos maiores ídolos da história da cultura pop ocidental, o ex-Beatle John Lennon (1940-1980). O músico e ativista inglês morreu após levar cinco tiros na porta do prédio em que morava, em Nova Iorque, disparados por Mark Chapman, um jovem beatlemaníaco nascido no estado do Texas.

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Chapman carregava um exemplar da obra de Salinger ao disparar contra Lennon e, ao longo dos anos, uma série de teses foram traçadas acerca da relação do romance com a vida, a personalidade e mesmo a atitude do assassino. Esse estigma em torno do livro e do acontecimento fascinou o ator Nicolas Trevijano, que, ao ler a publicação, começou a traçar suas próprias teses a respeito da relação Chapman-Salinger.

“Obviamente a primeira pergunta ao começar a lê-lo era: por que isso?”, questiona o artista que, a partir de então, iniciou um processo de pesquisa para um espetáculo que tentasse erguer pontes com a figura de Mark Chapman. Entre a ideia e a concretização do projeto foram cinco anos (com uma pós-graduação em psicanálise no meio).

“Eu me interessava cada vez mais pela psique humana. Dentre tantas descobertas e perguntas, uma delas era ‘como podemos ser tão parecidos e diferentes ao mesmo tempo?’ O que leva as pessoas a fazerem coisas abomináveis, como um assassinato planejado, por exemplo? A morte de John [Lennon], principalmente pelo fato de ele ser um renomado pacifista, era uma questão sem respostas. Por que matar alguém que prega a paz no mundo? A psicanálise pôde me dar algumas possíveis respostas, mas, como antes de mais nada sou um ator, minha vontade sempre foi levar ao palco aquilo que me aflige, e que talvez possam ser questões dos outros também”.

Assim nasceu John e Eu, solo que estreou nesta quinta-feira, 18, com transmissão online via Zoom e que traça o perfil e a história de vida do assassino Mark Chapman, que se encontra em meio a uma crise existencial poucas horas antes de cometer o assassinato que viraria o mercado e a cultura pop de ponta cabeça.

A partir dessa premissa, Trevijano desenvolveu a dramaturgia (sob assessoria de Juliana Sanches) e convidou o diretor Marco Antônio Pâmio para encenar a obra, dando continuidade a uma pesquisa de solos online iniciada pelo diretor em 2020 com o bem sucedido Uma Mulher Só, estrelado por Martha Meola.

Inspirado pela ideia de adentrar o universo particular e (ainda hoje) incompreensível de Chapman, Pâmio mergulhou na empreitada. “Imediatamente aceitei! Pela ousadia da ideia e por não me esquecer nunca de onde eu estava e o que estava fazendo no dia em que John Lennon foi assassinado. Uma data que não se esquece jamais. A perspectiva que ele apresenta no texto, dando voz ao Chapman sem julgá-lo, me soou um grande desafio e resolvi encarar a empreitada”, conta o encenador.

Ator e diretor concordam que, embora em 2020 tenha completado 80 anos da morte do músico, a temática segue atual e pulsando na sociedade contemporânea. “Justamente por ser essa data redonda, e que coincide com este momento tão turbulento que vivemos mundialmente, nos provoca e nos conduz a uma reflexão sobre a natureza humana no que ela tem de mais torta, insana, delinquente. Estamos cercados por insanidade e delinquência por todos os lados neste país, então jogar uma lupa sobre onde essa insanidade pode chegar, assim como chegou no caso do Chapman, nunca vai perder a pertinência e a atualidade”, conceitua Pâmio.

Trevijano complementa: “O ser humano tem a enorme capacidade de não aprender com o seu passado. Todas as grandes perguntas do mundo vão continuar sendo feitas todos os dias porque nós nunca teremos plenamente todas as respostas. Pra mim, ouvir uma história velha de novo é repensar hoje aquilo que nunca vou elaborar totalmente. Acho que essa história carrega muitas coisas dos dias de hoje”.

“Por exemplo, a insatisfação de ser simplesmente mais um na multidão é uma coisa muito atual. Mark preferiu ser alguém aos olhos do mundo da pior maneira possível, mas, ainda assim, para ele era melhor isso do que o anonimato. As redes sociais hoje são um exemplo de como estamos absolutamente doentes com a nossa imagem. Precisamos ser alguém aos olhos dos outros, custe o que custar. O problema é que a construção dessa imagem é sempre mentirosa, uma versão melhorada de mim, e essa distância de quem eu sou e o que eu quero aparentar ser gera sofrimento. Nunca se falou tanto em depressão e ansiedade”.

A morte do Beatle, acredita Pâmio, ainda pulsa na sociedade contemporânea porque é repleta de significado e da saudade e expectativa do que ele ainda poderia fazer. “A morte de Lennon ainda é, 40 anos depois, algo irreparável, imperdoável. Ele era um ativista da paz mundial, anti-belicista, um símbolo de que o projeto do ser humano poderia sim dar certo. E, por isso, nos faz uma falta gigantesca hoje, neste mundo cercado de ódio, doença e egoísmo. Ele ainda seria capaz de dar grandes lições à humanidade, além de preencher e elevar a alma das pessoas com suas canções”.

Realizada com recursos do edital do ProAC Emergencial da Lei Aldir Blanc, John e Eu apresentou outros desafios para a dupla, que não só a investigação do texto. Tanto a linguagem online quanto a técnica que a cercam foram dois pontos a serem contornados, principalmente por Trevijano.

“No começo, achei difícil. Teatro é a arte ao vivo, então tudo soava meio esquizofrênico. Mas essa é uma grande habilidade nossa: a adaptabilidade. Sempre vamos nos adaptar a tudo. No final, depois que entendi o código, depois que a internet estava turbinada (contratei dois planos de internet com duas operadoras diferentes, pra não ter problemas nos ensaios), tudo começou a ser muito prazeroso a ponto de não sentir mais falta ou estranheza de nada. Foram ensaios incríveis, com um diretor e uma pessoa incrível, e a gente com muito prazer querendo contar aquela história para um público. No fim, o que fica é o prazer de podermos fazer aquilo que a gente acredita, de uma forma, ou de outra”.

Pâmio, contudo, enxerga a situação com mais distância, embora concorde com a premissa do ator sobre a importância de se contar uma boa história. “Esse formato sempre representa uma perda, pelo simples fato de não haver interação ao vivo do intérprete com o público. Chamamos o evento de peça para não nos desacostumamos e nos iludirmos um pouco de que o que estamos fazendo é teatro. Mas definitivamente não é, e é o que temos para hoje. Ter a pretensão de chamar a experiência de cinema também é um equívoco imenso, por não sermos capazes de competir nem de longe com os recursos técnicos dele. Ficamos na nossa, tentando contar bem uma história, comunicar uma ideia e, se possível, gerar alguma reflexão. Já está de bom tamanho”.

John e Eu está em cartaz com transmissão via plataforma Zoom de quinta-feira a domingo, sempre às 20h, em temporada que se estende até o dia 25 de maio. As apresentações são gratuitas e os ingressos podem ser retirados via Sympla com até uma hora de antecedência antes de cada sessão (a deste final de semana já está esgotada).

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