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OPINIÃO: Ausência de artistas em encontro de ministros reforça narrativa de subjugação da classe

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OPINIÃO: Ausência de artistas em encontro de ministros reforça narrativa de subjugação da classe
Encontro de Ministros a Cultura | Foto: Divulgação

Desde a sua redemocratização, com a abertura política e a eleição indireta de Tancredo Neves, morto antes de tomar posse e sucedido por José Sarney na Presidência da República, o Brasil contou com 21 ministros da pasta da cultura ao longo de 33 anos de ministério – a despeito da primeira extinção da pasta, ainda no governo Fernando Collor, entre 1990 e 1992.

Destes 33 nomes, cinco se reuniram na segunda-feira, 02, para a divulgação de uma carta em que protestavam (tardiamente) contra a segunda extinção da pasta, desta vez no governo de Jair Messias Bolsonaro (PSL), e a desvalorização da classe artística e demonização dos meios de incentivo a cultura.

O encontro foi realizado entre Francisco Weffort, cientista político que assumiu a pasta entre 1995 e 2002, sob a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Roberto Nascimento Silva, que assumiu entre 1993 e 1994 no governo Itamar Franco, Marta Suplicy, no cargo entre 2012 e 2014, no governo Dilma Rousseff, Juca Ferreira ministro duas vezes, entre 2008 e 2010 no governo Lula e, depois, em 2015 e2016, no governo Dilma, e Marcelo Calero, que assumiu a pasta no início da gestão de Michel Temer, em 2016.

A discussão, entretanto, foi inflamada na tarde de ontem, quarta-feira, 03, com um post nas redes sociais da também ex-Ministra da Cultura, Ana de Hollanda – a frente da pasta durante os anos de 2011 e 2012, na gestão da então presidente Dilma Rousseff (PT). Comentando uma nota divulgada pela coluna do jornalista Ancelmo Góis no jornal O Globo, Ana questionou o fato de não ter sido convidada no que disse ter sido uma decisão arbitrária. Além de Ana, outra falta sentida foi a do cantor e compositor Gilberto Gil, ministro na gestão Lula (PT), de 2003 a 2008.

A despeito de estar na Europa, em turnê de divulgação, Gil não confirmou nem negou ter recebido o convite, mas é sintomático que, na sua ausência, o encontro tenha surtido efeito limitador. Ao não convidar Ana de Hollanda, cantora e compositora, o grupo de cinco ex-Ministros apenas reforçou a narrativa de que os artistas que ocuparam a pasta tinham cargos puramente decorativos, o que enfraquece, na carta divulgada, a crítica ao achincalhe vivido pela classe desde o início das eleições presidenciais em 2018, quando, em massa, cantores, músicos, atores, dramaturgos, diretores, produtores, artistas plásticos e uma série de outros profissionais a classe se posicionaram contra a campanha de Jair Messias Bolsonaro.

Formada basicamente por políticos, com carreiras consolidadas na classe, o encontro de Ministros da pasta extinta não parece surtir um efeito que valorize seu discurso. Pelo contrário. Dentro da classe ressoa apenas como um programa institucional, e para a sociedade mantém aberta a imagem de que artistas são apenas seres decorativos e que, na sua ausência, o país continua caminhado.

Faltou a franca sensibilidade de o organizador deste encontro (e daqueles que o compuseram) de entender a importância da presença de um artista – agente máximo da cultura – frente a um encontro que busca discutir exatamente o mercado que mais lhes afeta, principalmente por um veto vindo de, como se supôs posteriormente, picuinhas políticas.