Retratando inimigo invisível, peça Chernobyl estabelece pontes entre acidente nuclear e pautas contemporâneas

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Durante os cinco anos em que morou na França, entre 2006 e
2011, a atriz carioca Nicole Cordery estabeleceu uma relação profissional e de
forte amizade com a dramaturga, atriz, escritora, cineasta e multiartista francesa
Florence Valéro, um dos nomes mais importantes do teatro e do cinema
contemporâneo francês. E foi baseada nessa relação que a artista confiou a
atriz brasileira, em 2017, o esboço de algo que ainda não sabia se seria
transformado em um romance, um filme ou uma peça de teatro.

Com o título de Atração, o texto de Valéro era uma espécie de lembrança acerca dos 30 anos daquele que foi considerado o maior acidente nuclear da história, quando a usina número quatro explodiu em Chernobyl. Escrito em duas partes, o texto chamou a atenção de Cordery que, o mesmo ano, começou a alinhavar uma possível leitura daquele texto que retratava um assunto tão obscuro quanto necessário.

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Ensaio da peça Chernobyl | Foto: Bruno Perillo

A partir de então, a artista convidou a atriz Carolina
Haddad, carioca também radicada na França, para se mudar para São Paulo e
começarem a trabalhar no que, dois anos depois, se tornaria Chernobyl, peça que narra a trajetória
de uma família que, morando em Pripyat, é obrigada a abandonar todos os seus
pertences e deixar para traz a vida que construíram.

Com estreia agendada para 09 de setembro na Sala Beta do Sesc Consolação, o espetáculo ganhou, desde que as atrizes se debruçaram na concepção do espetáculo e tradução do texto, a direção de Bruno Perillo e a presença de Joana Dória e Manuela Afonso compondo o elenco ao lado de Cordery e Haddad que, em cena, se revezam entre uma série de personagens para contar a história de devastação de Chernobyl.

“O acontecimento foi tão grandioso e trágico que tentaram esconder
debaixo de um tapete frágil o que não tinha como esconder. Eles tentaram por
anos, mas aí todos souberam do acontecido quando uma nuvem chegou ao resto da
Europa, e mesmo assim não se chegou à investigação concreta do nível da
tragédia. Em algum momento ia explodir e tá sendo agora”, conta o diretor Bruno
Perillo que, ao lado do elenco, recebeu a reportagem em uma tarde de ensaio.

O espetáculo, nascido originalmente das relações que a
dramaturga Florence Valéro manteve na infância com crianças vindas de
Chernobyl, vem na onda da série produzida pela HBO que jogou um holofote sobre
o tema no último semestre. O sucesso da série no Brasil aconteceu durante o
processo de ensaios do espetáculo, mas não foi descartada como fonte de
pesquisa.

O ponto principal, contudo, é o livro vencedor do Prêmio
Nobel de Literatura de 2015 Vozes de
Tchernóbil
, da jornalista e escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch,
que ajudou na composição e na narrativa do espetáculo que, a despeito da
localização histórica e geográfica, não se limita a discutir apenas o
acontecido em Chernobyl.

“Na primeira leitura que fizemos, essa foi a grande questão:
por que falar de Chernobyl no Brasil? Fizemos a primeira leitura antes das
eleições, e nos perguntávamos se era o correto, com esse contexto político,
fazer uma peça falando sobre esse tema hoje, agora”, conta Carolina Haddad.

Ensaio da peça Chernobyl | Foto: Bruno Perillo

A resposta, contudo, veio de imediato. “Essa volta para Chernobyl virou um tema quase metáfora para elucidar nossa relação com temas atuais. Algo que tem essa dimensão de um acontecimento que é tratado como uma catástrofe, uma tragédia, mas está ligado a escolhas humanas, escolhas políticas muito claras, e na hora que isso se dá ninguém consegue ter noção das consequências a longo prazo” relata Joana Dória, que vê em Chernobyl a possibilidade de retratar ainda temas como a irresponsabilidade do capital.

“Nesse aniversário de Chernobyl você consegue olhar para trás
e atualizar a reflexão sobre quantas pessoas morreram, o impacto no ambiente,
você começa a mapear essas consequências ao mesmo tempo em que vivemos uma
série de tragédias, catástrofes e decisões que a gente se vê de novo olhando e
falando: não temos noção do legado que isso deixa para o futuro”, diz a atriz.

“E quando a gente pensa que pessoas estão decidindo a
quantidade de agrotóxicos na água que eu bebo, o desmatamento da Amazônia, os
índios que estão sendo mortos… são homens decidindo por outras pessoas, e
Chernobyl foi isso: a decisão de alguns homens que queriam avançar nuns testes,
avançaram e deu merda”, complementa Nicole Cordery.

O espetáculo trata exatamente destas chamadas “ameaças invisíveis”, como conceitua Manuela Afono: “Houve a explosão, mas até que todos tomassem conhecimento do quanto aquilo poderia impactar a vida delas, elas continuaram lidando com a radiação. Não era palpável. E nós não vivemos uma guerra visível, mas essas ameaças invisíveis, como a quantidade de resinas de agrotóxico na água, quando você come alguma coisa, bebe alguma coisa, fala no celular, isso tudo são ameaças e nós não temos noção”, pontua a atriz, que lembra que, nos depoimentos dos sobreviventes, a grande ameaça era a guerra do contexto político na União Soviética, não a explosão.

Chernobyl | Foto: Guy Pichard

Contexto este deixado de fora pela encenação, que traça o
foco principal apenas na família que deixa a cidade carregando uma boneca
radioativa e deixando todo o seu passado e o que construiu para trás. “O texto
enfatiza a saga de uma família que poderia ter perdido tudo em Brumadinho, ou
na Síria, ou na enchente em São Paulo. Pessoas que são obrigadas a sair das suas
casas sem nada, e vão indo. A peça é sobre o humano”, diz Cordery.

A peça se passa num espaço de tempo distinto: alguns meses
antes da explosão, o dia e três anos depois e, pela atemporalidade do acontecimento,
estabelece contato com o contemporâneo a partir de suas discussões numa visão brechtiana, como analisa Dória: “É olhar
de longe para ver algo perto. Olhar algo desse tamanho que esta longe faz a
gente olhar essas outras coisas que não são nada pequenas, mas são menores em
termos de proporção e impacto”.

Chernobyl fica em
cartaz de 09 de setembro a 22 de outubro na sala Beta do Sesc Consolação às
segundas e terças-feiras às 20h.

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