Vânia Toledo - Foto: Divulgação
Vânia Toledo - Foto: Divulgação

Quando a mineira Vânia Rosa Cordeiro de Toledo (1948-2020) chegou a São Paulo em 1961, egressa da pequena cidade de Paracatu, para tentar a carreira na área das artes visuais, o teatro brasileiro vivia ainda momento de repouso artístico, nada parecido com o que viria a se tornar a cena dali alguns anos após o golpe militar de 1964 e a instauração do Ato Institucional número 5, em 1968.

A partir daqueles anos de chumbo, Vânia Toledo, que saiu de cena na manhã desta quinta-feira, 16, aos 75 anos, vítima de complicações de uma infecção urinária, se tornara uma das figuras mais presentes no cenário teatral, ainda que bem distante dos palcos. A artista foi a responsável por registrar alguns dos momentos icônicos da revolução teatral, que deu origem a espaços como o Cemitério de Automóveis, em 1968, e a encenação de obras icônicas como o musical Hair (1968), marco do protesto juvenil no ano de endurecimento do regime ditatorial, o clássico da contracultura O Balcão (1969), de Jean Genet (1910-1986), encenado em um Teatro Ruth Escobar completamente desconstruído, Fala Baixo, Senão eu Grito (1969), de Leilah Assumpção e a histórica encenação de Antunes Filho (1929-2019) para Macunaíma (1978), de Mário de Andrade (1893-1945).

Toledo não apenas foi o principal nome a registrar a cena teatral no eixo Rio-São Paulo entre o final da segunda metade da década de 1960 e início da década de 1990, mas também foi uma das principais a transformar suas imagens em obras de arte à altura daquelas registradas.

As imagens de Toledo entraram para a história, muitas vezes suplantando as obras originais. São mais conhecidos, por exemplo, os registros fotográficos de Toledo para a peça Eva Perón, do dramaturgo argentino Copi (1939-1987), do que a montagem assinada por Iacov Hillel (1949-2020) e protagonizada por Myriam Muniz (1931-2004) em 1979, em São Paulo.

O mesmo se pode dizer de Afinal, uma Mulher de Negócios, de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), que, em 1981 ganhou montagem dirigida por Sérgio Britto (1923-2011) e protagonizada por Irene Ravache e Tonico Pereira em São Paulo, e se tornou lembrada pelos retratos icônicos de Toledo, que registrou ainda imagens que se tornaram definitivas de Marília Pêra (1943-2015) em obras como Doce Deleite (1981), Estrela Dalva (1987) e o mencionado Fala Baixo Senão eu Grito.

O mesmo aconteceu com Raul Cortez (1932-2006), fotografado em retrato definitivo para a divulgação da comédia As Boas (1991), versão de José Celso Martinez Corrêa para o clássico As Criadas, de Jean Genet, e Marco Nanini e Ney Latorraca em O Mistério de Irma Vap (1988). As imagens, originalmente pensadas para a divulgação das obras, foram elevadas a obras de arte ao serem utilizadas incansavelmente em exposições e homenagens aos artistas.

Vânia Toledo sai de cena neste 16 de julho de 2020 tendo estabelecido parâmetros e feito escola ao definir que o teatro moderno se fez não apenas de grandes textos, encenações e interpretações, mas também de imagens que, no fim das contas, eram também grandes obras de arte.