Eduardo Martini - Foto: Cláudia Martini
Eduardo Martini - Foto: Cláudia Martini

Quando 2020 rompeu no horizonte, Eduardo Martini já tinha uma agenda cheia de projetos que pretendia pôr em prática até meados do segundo semestre. O ator, diretor e produtor assumiu a direção artística e curadoria do Teatro União Cultural e preparava uma turnê por algumas capitais do Brasil, além de iniciar a pré-produção de três espetáculos inéditos, entre eles Simplesmente Clô, no qual realizaria o antigo desejo de dar vida nos palcos ao amigo Clodovil Hernandes (1937-2009).

A pandemia do novo Coronavírus, contudo, bagunçou o planejamento do ator ao congelar o mercado cultural e fechar teatros ao redor do mundo. Após período de reclusão, entretanto, o ator iniciou movimento através das redes sociais, sua principal arma de conexão com o público.

Em poucos meses, levou para as redes uma de suas personagens mais icônicas, a socialite Neide Boa Sorte que se tornou uma espécie de cronista do cotidiano, com histórias e comentários ácidos sobre os dias de confinamento e marcou o início de um híbrido entre teatro e mídias sociais, rendendo ao ator mais de 4 mil seguidores em semanas.

“Foi tudo muito natural. Comecei a fazer vídeos da Neide e vídeos como Eduardo, falando sobre a importância das empresas investirem em cultura e não em números, citando o caso da blogueira [Gabriela Pugliesi], de como seria a pandemia sem a cultura, enfim. Eu já tinha feito de tudo no começo da pandemia e resolvi fazer graça”, conta. A graça foi a websérie Os Barbosa, escrita e co-estrelada por Regiana Antonini e Stephano Matolla que se tornou sucesso de público e arregimentou a participação especial de nomes como Ângela Vieira e Totia Meirelles, entre outros projetos virtuais.

Agora, Martini chega enfim ao teatro digital com a estreia do Mês da Comédia, uma mostra dos trabalhos mais recentes de sua carreira que estreia amanhã, 27, com transmissão via Zoom. Na programação, o ator apresenta desde o solo Neide Boa Sorte – Manual de uma Cinquentona Atrevida até a comédia Uma Lágrima para Alfredo, escrito e co-protagonizado por Raphael Gama, e que rendeu a Martini a segunda indicação ao Prêmio do Humor, que levou em 2019 pelo conjunto de seus 40 anos de carreira.

Com quatro espetáculos – um por semana – o ator atende à tendência de países europeus. “Lá os teatros estão voltando e dando preferência para monólogos e peças de até duas pessoas. Como eu tenho seis monólogos ficou fácil escolher”, garante Martini que, aproveitando o momento, põe em cena a comédia inédita A Vida é Sua, a Norma é Nossa, de Anderson Dy Souza.

Na obra, o ator dá vida a Norma, que, confinada, usa o telefone para conversar com amigos e vizinhos e, entre um e outro gole de bebida, confunde histórias e fofoca,  se envolvendo numa teia de confusões. A peça é um típico vaudeville adaptado para os tempos de pandemia.

“Eu queria dar uma virada, queria que tivesse uma surpresa. É um texto que está comigo desde o ano passado, e eu decidi arriscar. Quero arriscar estrear uma comédia sem ter a ração direta do público, sejam gargalhadas, sejam vaias”, diz.

A falta da presença física do público, contudo, não assusta o ator, que vê o desafio com certa naturalidade “Eu fiz muita televisão com o Chico Anysio (1931-2012) [Escolinha do Professor Raimundo] e fiz uma novela inteira com a Dercy Gonçalves (1907-2008) [Deus nos Acuda, de 1992], então eu acho que me acostumei um pouco a não ouvir a risada do público, mesmo porque eu morro de medo de me vender por uma piada, por uma gargalhada. Eu tomo muito cuidado com o público e com a qualidade daquilo que eu tô apresentando. Não me vendo por uma piada, mas quero que o público se divirta”.

“Quem trabalhou tanto com comédia na TV como eu, que passei oito anos com o Chico Anysio, um ano com a Dercy, depois cinco anos com a Hebe Camargo (1929-2012) e mais cinco anos com a Adriane Galisteu, sabe que trabalhar com a câmera e não ter o resultado direto exige uma seriedade e um comprometimento muito grande com qualidade, que é o que eu mais quero na minha vida profissional”, diz.

Toda essa confiança, no entanto, não passa de imagem. “Na verdade, eu tô em pânico”, ri. O Mês da Comédia tem estreia nesta quinta-feira, 27, com transmissão via Zoom. O primeiro espetáculo será o clássico Neide Boa Sorte. Na semana seguinte, também na quinta-feira, 03, o ator apresenta Uma Lágrima para Alfredo e, no dia 10, a comédia Papo com o Diabo, de Bruno Cavalcanti, que marcou o início da parceria do ator com Elias Andreato.

A Vida é Sua, a Norma é Nossa estreia no dia 17 de setembro. Os espetáculos cumprem sessões sempre às 21h com ingressos de R$ 15,00 (meia) a R$ 30,00 (inteira).