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Thiago Mendonça celebra 50 anos de Stonewall, presta tributo a precursores e quer revitalizar teatro na madrugada

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Thiago Mendonça celebra 50 anos de Stonewall, presta tributo a precursores e quer revitalizar teatro na madrugada
Thiago Mendonça | Foto: Henrique Resende

Revolta considerada espécie de marco zero na luta dos direitos da comunidade LGBTQI+, o revide dos frequentadores de Stonewall Inn, bar nova iorquino localizado no bairro do Greenwich Village, em Manhattan, NY, contra os abusos e violência das ações policiais, completa, na madrugada desta sexta-feira, 28, 50 anos e marca a continuidade e os avanços da luta pelos direitos civis de toda a comunidade.

Celebrando o levante, o ator, figurinista e diretor de arte Thiago Mendonça sobe ao palco do Teatro dos Satyros 1, na praça Franklin Roosevlt, para encenar Stonewall 50, espetáculo imersivo baseado na linguagem desenvolvida ela Companhia de Teatro Íntimo há 14 anos, que busca não apenas contar as histórias que cercam o acontecimento, mas também pôr em cena os reflexos da revolta na formação do ator.

“Eu falo de Stonewall sim, mas partindo das minhas vivências, da minha impressão sobre esse universo todo, e isso desde a minha infância”, conta Mendonça, que vê nesse espetáculo a chance de construir uma narrativa voltada ao ser humano.

“Trato de gêneros e desses limites impostos pela sociedade. Eu, por exemplo, sempre gostei muito de bonecos e bonecas, mas só ganhava bonecos, e isso não fazia sentido. Nesse Brasil de 2019, onde querem dizer que meninos vestem azul e meninas vestem rosa, eu dou uma misturada nisso pra dizer que aqui é tudo humano, tudo sobre o ser humano”, conceitua o ator, que entrou em contato pela primeira vez com o espetáculo quando tinha apenas 14 anos de idade através de The Stonewall Celebration Concert, disco em que o cantor e compositor carioca Renato Russo celebrou os 25 anos da revolta.

“Eu conheci através do disco do Renato, mas o espetáculo traz tantas outras coisas além dele. Traz minha convivência com a Phédra de Córdoba, com a Divina Valéria, com a Márcia Dailyn. A vida me apresentou tantas outras pessoas desse universo, que a vontade de fazer essa peça veio daí, dessa vontade de homenageá-las como um todo”, conta, se referindo a artistas transexuais que marcaram as artes no Brasil.

Com estreia agendada para a madrugada de hoje (a peça fica em cartaz de as sextas e sábados a partir das 23h30), Stonewall 50 é também uma celebração das liberdades propostas pelo teatro, pelas artes e também pelo espaço em que se encontra em cartaz. “Eu gozo dessa vivência aqui, no Centro, aonde vou ao supermercado ou na farmácia e consigo ser atendido por uma mulher trans, talvez em Belford Roxo [município do Rio de Janeiro], de onde eu vim, a elas ainda só seja permitido a prostituição como profissão, mas eu sonho com o dia que vou chegar no hospital e vou ser atendido por uma médica ou um médico trans”, diz.

Sob a direção de Renato Farias, o espetáculo estreia falando a seu próprio público, mas pretende atingir novos espaços, como conceitua o diretor. “Eu acho muito bom você estrear entre os seus, a estreia é o lugar de você se sentir amado, querido, e também de fazer essa homenagem a elas no lugar delas, e a gente presta muitas homenagens a essas percussoras e as que estão na batalha atualmente, então acho que é um bom templo de partida, mas não vamos ficar aqui pra sempre, o espetáculo quer ganhar o mundo falar com outras pessoas, mas é fundamental começar aqui como uma reverência, pedir licença para os mais velhos e seguir com essa bênção”, acredita o diretor que, ao lado do ator, assina ao roteiro do espetáculo conceituado, também, como uma “peça karaokê”.

“Não tem quarta parede, o Thiago conversa diretamente com a plateia, canta, chama o público pra cantar, a gente não esconde nada, ele opera luz, opera som, opera vídeo, tudo acontece ali junto para que a cumplicidade com a plateia se estabeleça. Tudo isso junto ao que está se contando, e junto ao teatro de bonecas”, conceitua o diretor, prontamente corrigido elo ator: “teatro de bonecxs”, diz, se referindo a forma de expressão na qual se suprime as vogais femininas e masculinas para criar a impressão de igualdade na fala.

“Tudo isso determina um espetáculo único, né? Ele nasce com a própria personalidade”, acredita Farias, que ainda pontua: “Estamos aqui fazendo teatro e dizendo para o público que não vamos enganá-lo. Não estamos tentando fazer uma coisa que não é. Isso vem de [Bertold] Brecht. E o teatro documentário vai um passo além, usando tudo o que é verdadeiro. Contando as vivências do ator e suas verdades”.

A despeito de não ter partido primordialmente do trabalho de Renato Russo, Thiago Mendonça – que deu vida ao ex-líder da banda Legião Urbana na cinebiografia Somos tão Jovens – admite que parte do conceito do espetáculo se inspirou na obra do compositor. “Ele dizia que falando de Stonewall, falaria muito dele, da homossexualidade dele, das canções importantes para a formação pessoal dele”, conceitua o ator que põe em cena canções do compositor unidas  clássicos de nomes como Madonna, Judy Garland e George Michael, entre outros.

Aproveitando a chance de estrear o espetáculo num horário próximo a que marcou o início da revolta, ator e diretor pretendem também reativar um horário “eu já foi praticamente o horário nobre no teatro em São Paulo e no Rio de Janeiro”, diz Farias, que acredita que este também é um serviço importante para a segurança pública.

“O maior problema são as pessoas se meterem em casa com medo, ficarem escondidos atrás das grades. Quanto mais elas se meterem na rua, mais a gente vai ter liberdade, mais a gente vai conquistar segurança”, acredita o diretor que, apoiado por Mendonça, pretendem recuperar essa vida noturna. “Queremos ver esse horário reabilitado. É a recuperação de um público que se teve e se perdeu. Queremos eles de volta”, finalizam.

Stonewall 50 cumpre temporada de 28 de junho a 27 de julho, no Teatro dos Satyros 1, na praça Franklin Roosevelt, na Consolação. Sextas e sábados às 23h30. Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$20,00 (meia).