Eduardo Galvão/ Foto: Divulgação
Eduardo Galvão/ Foto: Divulgação

A prematura saída de cena de Eduardo Galvão (1962-2020) na madrugada desta terça-feira, 08, vítima de uma pneumonia causada por complicações da Covid-19, reacendeu nas redes sociais uma antiga discussão acerca do subaproveitamento de grandes artistas nas telas da TV.

Galvão, é consenso, foi um dos grandes atores da geração surgida entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990. Formado pelo Tablado e pela CAL, no Rio de Janeiro, o ator construiu larga experiência no teatro e chegou a deixar legado na TV com uma série de papéis coadjuvantes que, em algum momento, interferiram na história principal.

Galvão, contudo, não emplacara um grande protagonista ou um grande vilão que fizesse jus ao seu talento. Mesmo no teatro, a partir dos anos 2000, o ator se dedicou a comédias menores e a substituições. Em 2009, contudo, iniciou uma virada na sua carreira ao estabelecer parceria com a dupla de diretores Charles Möeller e Claudio Botelho.

Ao lado de Marília Pêra (1943-2015) e da vencedora do Prêmio Shell Guida Viana, estrelou em 2009 a comédia musical Gloriosa, escrita pelo inglês Peter Quilter sobre a “pior cantora de ópera do mundo”, Florence Foster Jenkins (1868-1944). A parceria rendeu bons frutos, e o ator voltou aos palcos sob a grife da dupla em Gypsy, um dos melhores espetáculos do repertório Möeller & Botelho e também um de seus melhores desempenhos em cena.

Na obra, Galvão deu vida a Herbie, o par romântico da protagonista Rose, vivida com brilhantismo por Totia Meirelles. O páreo era duro, mas Galvão exibia inteligência cênica na construção de uma personagem que, embora frágil e apaixonada, se mostrava altamente independente. A construção do clímax final entre as personagens teria rendido a Galvão uma indicação aos principais prêmios do teatro musical se existissem à época.

É assustador perceber, inclusive, o conservadorismo de bancas de júri que não conseguiram enxergar a construção deliciosamente cafajeste e poética de seu Daryl Van Horne, o antagonista do musical As Bruxas de Eastwick, adaptação do clássico filme de 1987 estrelado por Jack Nicholson, Cher, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon, e que marcou a última parceria do ator com os diretores da M&B.

Na obra, o ator não só apresentava uma das grandes personagens de sua trajetória, mas também mostrava evolução no canto, com seu melhor desempenho no mundo dos musicais, se comprovando um dos raros atores de fato versáteis, capazes de encenar obras dramáticas, comédias e musicais com o mesmo brilhantismo.

Ao longo dos últimos anos, Galvão voltou a espetáculos menores e a substituições que nem sempre faziam jus a seu desempenho cênico. Contudo, mesmo com planos mais ambiciosos para os palcos, Galvão tinha plena consciência de seu ofício e da forma que precisava desempenhar: como um operário, no sentido clássico usado para designar grandes nomes das artes cênicas do Brasil.

Com aproveitamento aquém daquilo que podia e mesmo do que se propunha, Eduardo Galvão sai de cena prematuramente sem ter se tornado a grande estrela que merecia, mas deixa a sensação de que foi o que quis: um versátil lutador para manter vivo seu ofício. E isso vale muito.