Nautopia - Foto: Rafael Hercowitz
Nautopia - Foto: Rafael Hercowitz

É tarefa hercúlea e praticamente impossível analisar a história do teatro musical brasileiro sem esbarrar no nome de Daniel Salve, o multiartista paulistano envolvido com produções do quilate do Prêmio Bibi Ferreira, laureação pioneira na valorização do teatro musical brasileiro que, desde 2019, também premia peças fora da seara e reconhecidas como “convencionais”.

É, portanto, sintomático que Salve seja um nome seminal na criação de caminhos sólidos para uma linguagem própria dentro do teatro musical brasileiro. Sua vocação para estabelecer caminho pôde ser conferida na noite de 02 de março, segunda-feira, quando apresentou o workshop de montagem de Nautopia, espetáculo inédito e autoral com texto, músicas, letras e direção assinadas pelo multiartista.

Prática ainda pouco difundida no Brasil, mas muito comum nos Estados Unidos, os workshops de montagem são apresentados em sessões fechadas para convidados e possíveis patrocinadores a fim de viabilizar a montagem dos espetáculos, especialmente no circuito de teatros da Broadway.

Nestes eventos, ainda que convidados, críticos não emite oficialmente suas opiniões até que o espetáculo faça sua grande estreia nos palcos após passar por uma temporada de pré-estreias em outras cidades, ou mesmo em Nova York. É tendo total e completa consciência este acordo internacional de cavalheiros que este texto é publicado não como uma crítica profissional e analítica, mas como um artigo despretensioso.

Tendo isso em mente, não é de todo equivocado afirmar que, a depender do espetáculo apresentado extra-oficialmente na noite de 2 de março, Nautopia já é musical artisticamente pronto e capaz de se sobressair como um dos grandes destaques da temporada no momento em que adentrar o circuito comercial.

A saga familiar idealizada por Daniel Salve se ambienta na fictícia ilha de Vale da Utopia, em Santa Catarina, onde os moradores vivem dias pacatos e desapegados da roda viva das grandes cidades e engrenagens de mercado. A peça tem como fio condutor a história de Tomás, jovem que deixou o Vale após o desaparecimento de sua irmã, Clara, e que buscou criar uma nova vida e realidade em Paraty, no Rio de Janeiro, ao lado de sua companheira Iara, que não tem informações sobre o passado do jovem.

A notícia de que seu amor do passado, Selena, retornou ao Vale e seu padrinho, Rocha, está prestes a morrer, mexem com as estruturas do garoto que decide fazer o caminho contrário e retornar a sua terra natal.

Salve constrói uma dramaturgia rica estruturada em embates familiares sem, contudo, estabelecer um maniqueísmo em suas personagens e nas ações estabelecidas ao longo da encenação. O artista abusa da poesia e da delicadeza ao conceber o cenário, que, simples, dá um tom lúdico a história que toma contornos folhetinescos (no melhor sentido da palavra) ao longo de suas quase quatro horas de duração.

Aliás, é importante ressaltar que embora soe excessiva, a duração do espetáculo resulta redonda sem jamais cansar. Salve alinha a dramaturgia com excelentes ganchos que impedem qualquer percepção trivial da obra. A direção corrobora com esta impressão, se jamais deixar que o espetáculo perca seu tom.

Contudo, o que realmente faz de Nautopia um grande diferencial frente às produções musicais do mercado patropi contemporâneo são as canções de Salve sob a (ótima) direção musical de Diego Salles. 

Os temas interpretados pelo elenco de 25 atores cantores não soam truncados, como geralmente acontece em obras musicais originais, e caem com cadência na embocadura brasileira sem jamais descaracterizar o gênero musical específico dos grandes musicais – os famigerados showtunes.

Encabeçado pelo vencedor do prêmio Bibi Ferreira Beto Sargentelli (em um dos desempenhos mais tocantes de sua carreira), o elenco resulta, no todo homogêneo, e consegue extrair emoções verdadeiras ao contar a história desta saga de resgate da memória familiar e confrontos internos. É importante ressaltar o trabalho de nomes como Daruã Góes, como a bailarina Selena, Aurora Dias como a conformada Lúcia, Rafael de Castro como o pseudo vilão Rocha e Nani Porto, como a matriarca Fátima.

Na pele de Iara, Luana Zehnun consegue destaque absoluto, principalmente no desenvolvimento do segundo ato quando, fugindo a qualquer melodrama, sua personagem se vê dividida entre a escolha de um amor não correspondido e a partida solitária. Opta pela sobrevivência com um desempenho tocante da intérprete.

O mesmo se pode dizer de Neusa Romano, atriz seminal da revitalização do teatro musical brasileiro, que aparece como uma participação especial na pele da esotérica Zara. Romano se sobressai não apenas pelo excelente timing cômico, mas também pela delicadeza que empresta à personagem, resultando cativante. Seu dueto com Aurora Dias em Ir Além e com Daruã Góes em Feito Disso são dois dos pontos altos de um espetáculo sem oscilações.

A depender do workshop apresentado para convidados, Nautopia é espetáculo pronto que, havendo a possibilidade, entrará no circuito comercial como um dos grandes destaques da temporada e apontará para caminhos mais sólidos na produção do teatro musical autoral no Brasil. Quem viver…