Ao fundir linguagens, 180 Dias de Inverno se apoia em beleza plástica sem abandonar peso dramático

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Em 2007, o artista plástico, músico, escritor, compositor e filósofo paulistano Nuno Ramos pôs o bloco literário na rua ao dar prosseguimento a carreira como escritor 14 anos após a publicação de seu primeiro livro, Cujo (1993), no qual traça um relato o entendimento do processo visual que desenvolve como artista.

Intitulado Ensaio Geral, a publicação de 2007 apresentava uma coletânea de textos e ensaios a respeito da arte, da literatura, da música, da sociedade, do futebol e de assuntos que movem os interesses desenvolvidos pelo multiartista ao longo de mais de, então, 30 anos.

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Entre os textos daquela bem sucedida obra, o mineiro Coletivo Binário pescou Minha Fantasma (Um Diário), texto confessional no qual Ramos narra o período de seis meses nos quais precisou desenvolver cuidados especiais com sua esposa, Sandra, enquanto ela sofria de um grave quadro de depressão.

Entre idas ao médico, lapsos de recuperação e recaídas, o texto trata não apenas das crises de sua esposa, mas também de seus seguidos sentimentos de medo, derrota, fúria e a dificuldade de lidar com o cenário formulado pelo quadro depressivo.

Assim nasceu 180 Dias de Inverno, espetáculo multimídia que estreou originalmente em 2009 e contou com sucessivas temporadas e indicações a prêmios até desaguar em temporada online iniciada no último dia 19 de março, e que segue até o dia 28, domingo, com transmissão no site oficial da companhia mineira.

180 Dias é obra que flerta diretamente com o universo múltiplo de Nuno Ramos, fundindo diferentes linguagens artísticas para narrar a história de angústia e dor de um homem que vê sua parceira convalescer em frente a seus olhos sem muitas opções de batalha.

Registrado no palco do Teatro Paulo Eiró, em São Paulo, o espetáculo se apoia na beleza plástica proposta pela boa direção de Nando Motta, que usa das possibilidades do audiovisual para potencializar não apenas a história, mas também – e principalmente – a assinatura poética do desenho de luz de Bruno Cerezoli, que sublinha a proposta quase claustrofóbica da encenação.

E este é um dos pontos altos da montagem que, online, consegue manter intacta sua poesia cênica, principalmente por preservar a grandiloquência tanto do cenário de Renato Bolelli e Beto Guilger, quanto da trilha original de Barulhista.

Entretanto o que realmente mantém a obra interessante é que, embora mergulhe nas múltiplas linguagens que fundem a dança-teatro, o vídeo mapping e a instalação artística – flertando, mais uma vez, com o universo moldado pela trajetória de Nuno Ramos – 180 Dias de Inverno é, em suma, um bom melodrama com a espinha dorsal do que há de mais clássico na linguagem dramatúrgica.

A direção de Motta consegue manter a obra estilisticamente viva e pulsante, mas não se priva de mergulhar no melodrama, norteando com fluência o bom elenco formado por Camilo Lélis, Fabiano Persi e Michelle Barreto a momentos realmente emocionantes. Mérito também da boa dramaturgia construída por Antônio Hildebrando, que valoriza, mais do que a construção de cada frase, os silêncios arquitetados pelo texto original de Ramos.

Dialogando sem medo com as experimentações cênicas presentes no teatro digital e nas linguagens que vem se desenvolvendo massivamente ao longo de mais de um ano, 180 Dias de Inverno cresce principalmente por não negar a espinha dorsal de sua obra original, num caráter essencialmente dramático.

SERVIÇO:

Data: 19 a 28 de março (sexta-feira a domingo)

Local: Site Oficial do Coletivo Binário

Horário: 21h (sextas); 18h e 21h (sábado); 19h (domingo)

Preço do ingresso: Grátis

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