Apostando na comédia simplista, Cinderella perde nuances, mas mantém magia musical em nova temporada

Musical dribla restrições da pandemia, mas diminui grandeza dramática em prol do riso fácil

Publicado em 17/09/2021 11:30
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Quando estreou em 2016, no palco do majestoso Teatro Alfa, na zona sul de São Paulo, o musical Cinderella – O Musical, composto pela dupla Rodgers & Hammerstein, estava longe de ser o trabalho mais desafiador da trajetória da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, dupla que criou, ao longo das décadas uma grife na montagem de musicais que, embora americanos, recebiam uma identidade própria no Brasil.

A despeito do baixo teor de desafio artístico, Cinderella – O Musical, por outro lado, foi espetáculo reconhecido pela excelência técnica e por criar uma história de conto de fadas plausível dentro da proposta de renovar a clássica fábula imortalizada pelos estúdios de Walt Disney em desenho de 1950.

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Com um ótimo elenco formado por nomes como Totia Meirelles, Bianca Tadini, Tiago Barbosa, Bruno Narchi, Giulia Nadruz, Bruno Sigrist, Carlos Capeletti e Ivanna Domenyco, entre outros, Cinderella – O Musical tinha a seu favor mais do que as (ótimas) músicas de Rodgers & Hammerstein, mas também uma direção que valorizava o trabalho de atores que, embora encenando obra famosa com o público infantil, dialogava com o público adulto.

Seis anos após aquela bem sucedida primeira montagem, Cinderella – O Musical ganha uma nova temporada com direito a uma revisão geral no elenco, no figurino e na direção. A obra retorna a São Paulo após uma turnê em 2018 e um período sabático em 2019, estendido, devido a pandemia do Coronavírus, em 2020.

Daquela primeira montagem para a nova encenação de 2021, algo parece ter se perdido. Que pese toda a dificuldade enfrentada pelo setor cultural com a paralisação do setor cultural e os desdobramentos que levaram a um sucateamento geral do mercado da cultura das artes e das leis de incentivo que, no âmbito federal, foram prejudicadas pelas políticas adotadas pelo governo de ocasião.

Contudo, o que realmente dava charme à montagem de 2016 que não se preservou foi o diálogo com o público adulto e o infantil sem prejuízo de sua proposta original. A nova montagem, ainda com a assinatura Möeller e Botelho, mas com a direção da remontagem de Vanessa Costa, parece apostar numa infantilização constante do público, o que, à primeira vista, não seria um problema se a obra não pudesse muito mais.

Em cartaz no Teatro Liberdade, a Cinderella – O Musical de 2021 soa mais apagada num processo que nada tem a ver com sua (ainda imponente) cenografia ou com os figurinos assinados por Toninho Miranda. A questão é que a obra parece abandonar um público em prol de uma comunicação simplista baseada na comédia rasteira de estereótipos.

Helga Nemetik, por exemplo, aposta num tom incessantemente cômico que soa acima do tom ao longo das entradas de sua Fada Madrinha – ainda que funcione bem enquanto interpreta a Louca Marie. Diego Montez, da mesma forma, faz pouco pelo revolucionário Jean Michel, enquanto Conrado Helt pouco faz pelo vilão Sebastian.

Do outro lado, Luana Bichiqui acerta ao pesar as tintas de sua Charlote, enquanto Thuany Parente consegue bons momentos construindo um perfil romântico e pouco óbvia para sua Gabrielle. Gottscha no papel da Madrasta de Cinderella consegue um de seus melhores desempenhos em cena, ainda que possa crescer mais se abandonar trejeitos expansivos de uma personagem que tem chances de crescer ainda mais dentro de registro mais sóbrio.

Na pele de Lord Pinklenton, Fernando Palaza é um dos destaques do elenco, numa composição certeira e abocanha a melhor passagem do espetáculo, O Baile Real (A Revolução), momento no qual o espetáculo mostra guardar ecos de sua montagem anterior, valorizando a coreografia de Alonso Barros (prejudicada mais pela escolha do teatro do que efetivamente pela montagem).

Na pele da personagem-título, Fabi Bang é a força motora que faz de Cinderella – O Musical um espetáculo de grandes proporções. Madura enquanto atriz e com a voz tinindo, Bang angaria alguns dos melhores momentos do espetáculo, sustentada no excelente timing cômico, do qual já havia demonstrado domínio em montagens como Kiss me Kate – O Beijo da Megera e Wicked.

Enfim, ainda que pareça ter perdido muito de sua força cênica, Cinderella – O Musical ainda é obra capaz de encantar, seja graças ao (ótimo) ensemble, seja pela força de parte do elenco que parece ter encontrado bom caminho para contar essa história sem apelar para caminhos simplistas que pouco adicionam à obra. Ainda é espetáculo de magia salutar, que vale, principalmente, pela retomada do mercado dos grandes musicais. 

SERVIÇO:

Data: 02 de setembro a 31 de outubro (quinta-feira)

Local: Teatro Liberdade – São Paulo (SP)

Endereço: Rua São Joaquim, 129, Liberdade

Horário: 20h30 (quintas e sextas) | 16h e 20h30 (sábados) | 16h e 20h (domingos)

Preço do ingresso: R$ 60,00 (meia) a R$ 240,00 (inteira)

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