Mãe Coragem se engrandece em montagem ambiciosa e consagra Bete Coelho

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Peça considerada como uma das obras primas da produção do dramaturgo alemão Bertold Brecht, Mãe Coragem e Seus Filhos é um texto que, por sua grandiosidade, recebeu poucas – porém marcantes – montagens no Brasil. A primeira, ainda na década de 1960, deu a Lélia Abramo não apenas o respeito da classe, mas também a consagração frente a público e crítica.

Em 2002 foi a vez de Maria Alice Vergueiro, decana atriz ligada ao underground paulistano, subir a cena e comemorar 40 anos de trajetória na pele da personagem que não vê na guerra uma tragédia, mas sim um meio de vida.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Quatro anos depois, em 2008, coube a Louise Cardoso interpretar a personagem na montagem idealizada pelo Armazém Companhia de Teatro em uma performance que dividiu a crítica por seu caráter excessivamente plácido.

Onze anos depois desta última montagem, chega ao Sesc Pompéia a versão de Daniela Thomas para o clássico de Bertold Brecht, e também sua montagem nacional mais ambiciosa e grandiloquente. Ambientado ao longo da Guerra de Trinta Anos – 1618 a 1648 -, o espetáculo acompanha a trajetória de Coragem, mulher que, ao lado de seus três filhos, enfrenta a guerra para vender a soldados comida e outros objetos em busca da sobrevivência.

Utilizando da guerra como seu meio de vida, a personagem vê seus filhos, um a um, sendo levados pelas batalhas. O primeiro é levado a se alistar, e chega a cair nas graças do comandante, e os outros dois acabam mortos em meio a guerrilha.

Assinada por Daniela Thomas, a encenação foge aos moldes clássicos do teatro e se ambienta no Ginásio Primavera do Sesc Pompéia, utilizando de uma arena e cenários que, embora não abusem do realismo, estabelecem um reconhecimento direto com o público.

Thomas põe em cena (excelente) sexteto para dar vazão às tensões de sua montagem, que se vale não apenas pela grandiosidade e ambição da cenografia pensada por Thomas e Felipe Tassara e pelo ótimo desenho de luz de Beto Bruel, mas também pelos figurinos de Cassio Brasil, que faz vislumbrar a miséria rota da guerra com perfeição, e pelo ótimo elenco.

Thomas une em cena uma trupe de atores que, embora encontre um ou outro elemento destoante, no todo, triunfa. Os 12 atores valorizam o espetáculo a ponto de fazê-lo adquirir ritmo invejável, fazendo com que suas duas horas e meia resultem imperceptíveis.

É importante destacar o trabalho de nomes como Carlota Joaquina e Luisa Renaux, que conduzem a peça sem didatismos no papel de narradoras, assim como Murilo Grossi e Ricardo Bittencourt que, respectivamente, na pele do cozinheiro do capitão e do capelão, desenvolvem uma linguagem nada óbvia para duas personagens que buscam apenas a sobrevivência em meio a guerrilha.

Amanda Lyra, na pele da prostituta Ivete, também rende muito, emprestando a personagem um ar de elegância que beira a uma senilidade desesperada. Assim como Rodrigo Penna, na pele do filho Queijinho, que constrói uma personagem cativante de rápida identificação com o público, irmanando seu trabalho com a delicadeza da construção de Luiza Curvo, que, sem falas, entrega um trabalho corporal de sua personagem que beira ao desespero numa construção que ameaça atingir o histrionismo, mas triunfa no fim.

Contudo, o grande destaque do espetáculo, está na excelente Mãe Coragem construída por Bete Coelho. A atriz constrói uma personagem forte e cativante, de gestos milimetricamente pensados para dar uma mistura de dinamismo e sensibilidade a todas as suas cenas.

Inegavelmente uma das melhores atrizes de sua geração, Coelho encontra em Mãe Coragem um de seus melhores – senão o melhor – momentos em cena. A atriz, que pouco sai de cena, faz um trabalho calcado no olhar de sua personagem, uma dúbia aproveitadora da guerra que vive de suas desgraças, mas amaldiçoa que a desgrace.

Na encenação de Thomas, é impossível deixar de achar que a personagem que realmente importa é a que dá título ao espetáculo, e não necessariamente a guerra, como idealizado originalmente por Brecht. Coelho leva o espetáculo com a naturalidade das grandes atrizes, e emboca, com naturalidade ímpar, texto que, a despeito de ter sido escrito em 1939, é de uma contemporaneidade absurda.

Em curtíssima temporada no Ginásio Primavera do Sesc Pompéia, até 21 de julho, Mãe Coragem se impõe como uma das melhores e mais intensas montagens do texto no Brasil, e reafirma a excelência de Bete Coelho, que se impõe como a intérprete de uma Era.

SERVIÇO

Data: 11 de junho a 21 de julho (terça a domingo)

Local: Ginásio Primavera do Sesc Pompéia – São Paulo (SP)

Endereço: Rua Clélia, 93 – Pompéia

Horário: 20h30 (terça a sábado); 18h30 (domingos)

Preço do ingresso: R$ 40,00 (inteira) | R$ 20,00 (meia) | R$ 12,00 (credenciados)

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio