Dib Carneiro Neto | Foto: João Caldas Filho
Dib Carneiro Neto | Foto: João Caldas Filho

Em meados da década de 1990, o jornalista e dramaturgo vencedor do Prêmio Shell Dib Carneiro Neto decidiu promover uma virada em sua trajetória dentro da comunicação, adotando como o principal produto de suas críticas e análises teatrais as obras criadas para jovens e crianças dentro do teatro brasileiro.

A partir de então, foram críticas, análises e livros que tinham como foco reposicionar o teatro infantil e jovem no mercado do Brasil, devolvendo a ele a importância conquistada por encenadores como Maria Clara Machado (1921-2001) e Vladimir Capella (1951-2015).

“Me encanta a poesia dessa linguagem, as metáforas e outras simbologias que se criam para dizer às crianças coisas necessárias sobre a vida, as voltas criativas que um artista dessa área tem de dar para atingir a sensibilidade de uma criança, fazer brotar uma gargalhada na plateia, estimular um abraço entre pais e filhos. Como abandonar isso depois que você descobre a magia que o teatro exerce nesses seres em formação?”, conceitua Neto.

A paixão e o encantamento pela linguagem deram vazão a uma série de criações do autor, a mais recente é Aconteceu Naquela Peça, websérie de 16 episódios transmitida pelo canal oficial do autor no Youtube, Pecinha é a Vovozinha, na qual Neto dá espaço para encenadores, autores e atores com trajetórias ligadas ao teatro feito para jovens e crianças relembrarem causos e acontecimentos que movimentaram suas obras.

Com capítulos curtos de quatro a oito minutos lançados duas vezes por semana (terças e sextas-feiras), o jornalista propõe uma manutenção da memória popular ao pôr em cena artistas com ligação a um teatro que, em sua visão, ainda não recebe a atenção que deveria.

“Neste momento interminável de pandemia e isolamento social, comecei a perceber que todos nós, mas principalmente os artistas (sempre mais sensíveis), nos voltamos muito para nosso mundo introspectivo, nossas memórias, refletindo sobre nossas trajetórias ‘até aqui’. Tive a ideia de fazer alguns desses profissionais, isolados forçadamente em suas casas, lembrarem-se de casos divertidos e emocionantes que ocorreram em suas carreiras, relacionados ao universo infantil. Deu certo. A aceitação foi imediata, porque estamos todos nessa ‘vibe’ de repensar, refletir, fazer nossos balanços de vida. Esse mergulho interior que a pandemia impôs à humanidade foi propício para um projeto apoiado no tom memorialístico”.

“Outro facilitador do projeto: hoje, pedir que alguém ligue a câmera do seu celular na posição horizontal e grave um vídeo curto, virou quase ‘arroz-feijão’, o trivial da comunicação. Foi o que pedi aos convidados participantes. As pessoas fazem isso (a pandemia contribuiu) com mais desembaraço do que nunca. Depois editei tudo, de forma bem simples, sem grandes arroubos. Foi um aprendizado, um exercício audiovisual que me impus com a maior honestidade possível”, diz.

O projeto, inaugurado na última sexta-feira, 19, com a participação do diretor Rodrigo Audi, da Cia. Um de Teatro, e suas lembranças do espetáculo Dom Quixote, vem como uma forma de tentar reverter também uma espécie de descaso com o meio infantil, que, acredita o crítico, é o resultado de uma série de questões (até) econômicas.

“Os jornais, ao longo das recentes décadas, perderam espaço para tudo. Perderam papel, diminuíram suas edições e até suas tiragens. Assim, nas editorias de uma Redação, os lados mais fracos da corda roem antes. Se o espaço editorial para teatro infantil já era escasso porque rende menos anunciantes, por ter menor visibilidade comercial, imagine como ficou minguado no espectro de uma imprensa escrita mais condensada”, analisa.

“É raro ver matéria sobre isso nos cadernos culturais de hoje. Isso leva os novos jornalistas da área cultural, das novas gerações, a quererem se dedicar a assuntos que os tornem mais visíveis no mercado. Ser repórter ou crítico de cinema, por exemplo, garante mais mercado profissional do que se o jornalista sugerir uma pauta de teatro para crianças. Por isso, essa situação desoladora na imprensa escrita, no que se refere à cobertura de teatro infantil. Proliferaram-se os blogs, os sites, eu mesmo migrei para a internet e para as redes sociais, e, depois de 30 anos de carreira, estou reaprendendo tudo, mas ainda assim os blogs voltados para a análise e divulgação das artes para as infâncias são bem menos numerosos”.

Aconteceu Naquela Peça surge também como uma espécie de amenizador dentro das dificuldades enfrentadas pelos profissionais deste campo comercial, uma vez que a pandemia do Coronavírus já teve um efeito devastador no meio do teatro adulto, com mais mercado e mais chances de recuperação. Para Neto, a recuperação do teatro feito para crianças e jovens será ainda mais paulatina.

“Durante a pandemia, que, aliás, ainda vigora os profissionais de teatro para crianças e jovens entraram em uma situação de ruína financeira de proporções inimagináveis. Mas, artisticamente falando, não cruzaram os braços e choraram impotentes nos sofás de suas casas. De uma maneira geral, arregaçaram as mangas, ligaram as câmeras e se viraram como puderam no aprendizado do meio audiovisual. Muitos casos desastrosos proliferaram, coisas ruins de se assistir, transposições preguiçosas e despreparadas de peças teatrais para as multitelas, sem cuidados de dramaturgia adaptada, sem mexer em luz, em cenografia. Mas também muita coisa linda foi feita”.

“Muita gente do teatro criou ‘produtos’ híbridos criativos, inventivos, inusitados, com linguagens surpreendentes. Fiquei emocionado. Chamei o tempo todo de ‘experimentos cênicos digitais’. O teatro nada mais é do que contar histórias. E quem soube tirar proveito disso, diante da câmera, repensando a linguagem, se deu bem artisticamente na pandemia. Agora, o baque financeiro foi enorme para todo mundo do teatro, não teve jeito, né? E os efeitos são sempre maiores no teatro dito infantil do que no teatro para adultos. Isso é recorrente e histórico. Apesar do nível de excelência já alcançado artisticamente pelo teatro para crianças, essa modalidade de artes cênicas ainda carece de reconhecimento, apoio, leis de incentivo e ainda sofre muito preconceito, sendo vista como algo menor e com menos potencial comercial pelos investidores”, acredita.

Sua análise levanta ainda outra discussão importante: a escalação de elencos para as obras. “Quase não há apelo de artistas televisivos famosos nos elencos, por exemplo, o que leva as empresas a não quererem investir. Os cachês e aportes de leis oficiais de incentivos são menores do que para o teatro adulto. Coisas desse tipo, que ainda persistem, com a pandemia se agravaram. A volta será penosa, a recuperação será lenta e sofrida”.

Com uma segunda temporada já engatilhada, Aconteceu Naquela Peça pode vir a gerar outros produtos, como o capítulo de um livro, ou mesmo um livro com os depoimentos memorialistas destes profissionais. Tudo segue no radar de Dib Carneiro Neto que, através desta obra, dá novo passo rumo à batalha pela valorização do olhar para o teatro feito para jovens e crianças. 

“A cada ano que se passava em minha carreira como crítico dessa modalidade artística, eu percebia o quanto os artistas voltados para essa arte careciam de atenção, de um olhar mais minucioso, de uma opinião mais cuidadosa e detalhada. Como abandoná-los? São artistas de uma criatividade sem limites, com uma sensibilidade à flor da pele o tempo todo, com intenções honestas de atingir o coração de uma criança. E poucos jornalistas dão atenção a eles. Eu quero isso para minha vida, esse olhar voltado para quem merece o meu olhar”, finaliza.