“O Brasil precisa de uma revolução educacional, cultural” analisa Marcus Montenegro, que lança guia para a carreira artística

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Em meados da década de 1970, o Brasil vivia uma de suas maiores e melhores explosões culturais nos campos da música popular e do teatro, com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Chico Buarque de Hollanda e Rita Lee dominando as paradas da radiofônicas enquanto, nos palcos, artistas como José Celso Martinez, Antunes Filho (1929-2019), Antônio Bivar (1939-2020), Leilah Assumpção, Marília Pêra (1943-2015), entre outros, causavam filas nas portas dos teatros e verdadeiras catarses culturais na sociedade moderna.

Por trás dos holofotes, outros nomes também promoviam revoluções, mas sem o conhecimento direto do público. Nomes como João Araújo (1935-2013), Manoel Poladian, André Midani (1932-2019) e Lea Millon (1930-2011) transformaram o mercado de agenciamento artístico transformando nomes como Roberto Carlos, Tim Maia (1942-1998) e Elis Regina (1945-1982) em grandes estrelas da memória popular brasileira.

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Essa figura do agente responsável por descobrir, gerenciar e alavancar de todos os detalhes da carreira profissional e, às vezes, da vida pessoal de um artista era bastante natural principalmente em países como Estados Unidos e Reino Unido, onde nomes como a alemã Sue Mengers (1932-2011) revolucionou a história do cinema ao descobrir e agenciar nomes como Gene Hackman, Sissy Spacek e Barbra Streisand.

Com a recessão herdada do período militar já no final dos anos 1980, os grandes agentes se tornaram figuras muito mais míticas do que verdadeiramente atuantes no mercado nacional. Embora algumas gravadoras ainda investissem em novos artistas (como os que formaram o movimento do rock Brasil), os grandes agentes foram se tornando empresários de multinacionais que abrigavam, em seus guarda-chuvas, os grandes artistas.

Essa figura do grande agente permaneceu adormecida até meados da década de 1990, quando o comunicador Marcus Montenegro e o empresário Nilson Raman se uniram para fundar a Montenegro & Raman, produtora especializada no agenciamento artístico e produção cultural de nomes como Nathalia Timberg, Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça.

A empresa, que durou mais de 20 anos, se desfez em meados de 2018, um ano antes da saída de cena de uma e suas maiores estrelas, a cantora, atriz, diretora e produtora Bibi Ferreira (1922-2019), mas Montenegro segue no agenciamento artístico com sua recém-fundada Montenegro Talents. “Em 2015 resolvi parar de produzir depois de realizar mais de 100 produções. Raman e eu decidimos que pararíamos quando Bibi parasse”, conta Montenegro.

“Quando comecei minha produção em 1987 só tinha TV aberta, quando em 2010 eu vi que já tínhamos a TV a cabo com força, o mundo digital ensaiando uma evolução forte e o streaming se formando, decidi ampliar a empresa e montei a Montenegro Talents. Eu trouxe todo o meu know-how de produtor e hoje sou completamente focado no agenciamento. Daí fui me descobrindo em outro ofícios, como o de palestrante, em 2015, e quando me descobri um ‘mentor’, que é um trabalho de receber cinco atores do Brasil inteiro e fazer toda a avaliação artística”

Foi partindo deste acúmulo de experiências de mais de 30 anos que o empresário escreveu Ser Artista, um guia prático sobre o mercado artístico e a construção de uma carreira sólida no cenário da cultura das artes. Marcado seu primeiro passo no ramo literário, Montenegro enxerga o livro como uma fonte de inspiração. “O livro são minhas memórias misturadas com minha palestra. E eu trago histórias que vivi com as grandes damas que podem servir de inspiração”, garante. 

“Eu sou uma pessoa preocupada com formação e educação, e elas estão entremeadas em vários capítulos. Mostro ao ator a importância de ter um bom material, um bom vídeo, um bom currículo, então eu acho que tem um método, a fórmula é ter uma boa formação e educação, tirar o DRT em cima de uma escola que trabalhe para isso”.

Mais do que um simples guia, Ser Artista é, na concepção de Montenegro, uma forma de incentivar o jovem ator a buscar os caminhos que, embora soem tortuosos, são a garantia para construir uma carreira sólida. “Não trabalho em cima das exceções, como modelos, vencedores de reality shows… o caminho é fazer o que esses grandes atores fizeram, esses grandes mestres são nossa referência de formação. Eles tiveram escolha de repertório e foram grandes empreendedores numa época em que não tinha patrocínio, trabalhavam com financiamento de banco, era outra realidade porque tinha um grande público e conseguiam viver de bilheteria”, analisa.

A boa recepção do livro já inspirou o autor a preparar um segundo volume do guia, além de iniciar os trabalhos em seu livro de memórias, também como um guia de estudos. “A geração que está chegando não vai ter o nível de formação e comprometimento que esses atores tiveram. Hoje tem uma inversão de valores. A maioria quer sucesso e dinheiro e a arte fica em segundo plano! Em sua grande massa as pessoas querem fazer novela. É o pensamento do ator jovem brasileo que está chegando. A gente tem que chegar, mostrar as escolas sérias e é importante abrir a mente e não ficar só na carreira de ator. É ser plural, é estagiar em todas as áreas, quando você entende e experimenta,você pode ter muitas profissões”, analisa.

Contudo, embora incentive a produção de jovens talentos, Montenegro tem visto com preocupação o momento atual da cultura. “Nós não temos o olhar, o respeito e o incentivo do poder público, e isso reflete no todo. O poder público joga a sociedade contra os artistas. E agora a grande prova da importância da classe e do meio foi a pandemia. Imagina a pandemia sem séries, livros, música, novelas, sem arte. Nós mostramos o quanto somos importantes economicamente falando e em termos de lazer. É fundamental ter um apoio. Eles não têm interesse porque a classe tem essa voz de fazer uma revolução cultural na sociedade, e uma sociedade preparada vai combater a tirania. Tirar a voz não, dar espaço, não incentivar, isso tudo é muito cruel, é duríssimo. O reflexo disso lá na frente vai ser muito grande”.

“O Brasil precisa de uma revolução educacional, uma revolução cultural. É preciso fazer uma grande onda cultural estimulando a cultura, o teatro, a música”, reflete. “Quando eu chego na Bienal com a Thalita Rebouças [escritora] e vejo as crianças gritando que a amam, e ela é uma autora, o que elas amam? Não é ela, são as histórias dela,são as criações dela. E isso é incrível. Agora nós vivemos um momento doentio porque o público migrou o olhar. Antigamente o interesse era na carreira do artista. Hoje só se interessam pela vida particular. Se o ator fizer um post sobre a peça, vai ter pouquíssima curtida, agora se for uma coisa sobre a vida pessoal, ele vai bombar.

“Não dá pra gente se acomodar e nivelar por baixo mediante esse caos onde todo mundo cria uma vida fake e doenças surgem por questões comportamentais, porque só veem a vida dos outros, só vem a felicidade, a positividade, tem que usar o bom senso. A inteligência emocional é primordial”, finaliza.

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