Respirando em meio ao sufocamento, Davi Novaes analisa processo criativo enquanto estreia segunda obra autoral

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Em meados de 2018, prestes a se formar no curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP), o ator Davi Novaes decidiu revisitar velha ferida amorosa em busca de material para a criação de conto inédito para servir ao ambiente acadêmico, No afã da criação, o artista encontrou mais do que simples material para a criação, mas uma forma de buscar uma cura para dor ainda latente.

Nasceu então O Que Restou de Você em Mim, conto em primeira pessoa no qual o autor relata as dores de uma separação abrupta imerso em referências da cultura pop. Escrito em meados de junho, o texto, na visão do ator, tinha potência dramatúrgica para expandir o universo da palavra escrita e ganhar outras mídias. 

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Foi assim que, em menos de três meses, Novaes deu início à caminhada como dramaturgo com a estreia de O Que Restou de Você em Mim, solo confessional que foi angariando parceiros do quilate de Célia Forte, Eduardo Moscovis e Rafael Gomes ao longo da jornada que culminou em uma azeitada montagem dirigida por Virgínia Buckowski e Alejandra Sampaio, e bem sucedidas temporadas com casas esgotadas tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro.

“Sou eternamente grato por terem acreditado em um menino com seu primeiro texto”, celebra o autor que, ao longo de três anos, precisou digerir as dores e delícias do sucesso para poder voltar a pôr para fora novas angústias que movimentavam sua crença artística.

“Essa segunda peça, nasceu mesmo da necessidade de analisar o que estava acontecendo comigo dentro de tudo o que estava acontecendo com todo mundo. Nasceu mesmo da necessidade, como uma perna da vontade que por saber que tem que andar, anda. Eu fiquei 2 anos tentando escrever esse texto novo, desde quando terminei o primeiro, e não conseguia encontrar o modo de falar aquilo que eu queria”, relembra Novaes.

Foi preciso um exílio involuntário causado pela pandemia do novo Coronavírus para que o autor pusesse em prática o processo de escrita criativa que aprendeu ao longo da infância com sua avó Cleópatra. Em 15 dias nasceu É Sempre Mais Difícil ancorar um Navio no Espaço, com título retirado de poema homônimo de Ana Cristina César.

“Quando a pandemia se instalou, escrevi em 15 dias o que eu queria dizer. E agora está dito. Gosto bastante do texto dessa peça, acho que amadureci enquanto dramaturgo, falando sobre questões mais amplas, mas sem deixar de lado o universo do Amor que é o que me move”, conceitua.

Tal qual no texto de estreia, esta segunda obra veio angariando parceiros que se reuniram em prol de uma mesma temática para pôr o bloco na rua: o amor. A direção da obra ficará a cargo do vencedor do Prêmio Shell Zé Henrique de Paula, enquanto Novaes dividirá a cena com a atriz Marcella Piccin, repetindo bem sucedida dobradinha inaugurada na montagem do musical infanto-juvenil O Príncipe Desencantado, de Rodrigo Alfer.

“Eu ainda não acredito. A Marcella é uma atriz incrível! Já o Zé acreditou na peça quando ela era só palavra. Leu o texto e gostou. Lembro quase de cor a mensagem maravilhosa que ele me mandou quando, num ataque de coragem, perguntei se ele toparia dirigir. Quero deixar registrado meu agradecimento aos dois. Teatro não se faz sozinho, e quando olho pro lado e os vejo, sou inundado por uma felicidade que não tem tamanho e, ao mesmo tempo, tem o tamanho do mundo”.

A estreia de É Sempre Mais Difícil ancorar um Navio no Espaço, contudo, é apenas um dos projetos que Novaes guarda para este ano. Ainda secreto, um novo espetáculo marcará a nova parceria do ator com outro diretor vencedor do Prêmio Shell, Rafael Gomes, que pretende montar obra baseada em acontecimentos do caótico ano de 2020, com a participação de 12 atores.

Em paralelo, o ator ainda assinará a assistência de direção da comédia A Ciumenta, primeiro solo da carreira da atriz e cantora Renata Brás, que estreia neste fevereiro no Espaço Cultural Bricabraque, em São Paulo, baseado no quadro desenvolvido pela atriz em parceria com Novaes no humorístico A Praça é Nossa, exibido pelo SBT.

 A produtividade é resultado de um período dúbio vivido durante o pico da pandemia em meados de 2020, que, embora tenha rendido bons frutos, também foi canalizador de ansiedades.

“O processo de criação foi caótico. Por vezes, escrevia bastante e me sentia satisfeito, outras vezes me cobrava por estar sentindo um cansaço muito grande, um esgotamento e um vazio. Mas acredito que consegui manter uma constância que me agradou. Esse segundo texto trata muito da criação, o que fez com que eu olhasse para o meu modo de criar e o analisasse”, conceitua Novaes sobre a obra que retrata a relação de duas pessoas e suas solidões, suas dúvidas e questionamentos ainda em descoberta – o que inspirou o subtítulo da obra: Um Eclipse Entre um Ator e uma Atriz.

“Esse processo fez com que eu criasse dois cursos de escrita criativa durante a pandemia. Foi uma experiência incrível falar sobre a criação com pessoas que estavam dispostas a pensar, dizer, criar, fazer. Foram encontros lindos e aos quais sou muito grato, pois serviram como um respiro no meio de todo aquele sufocamento que estávamos, e ainda estamos passando”.

E, de certa forma, são esses sufocamentos que movimentam a arte do jovem artista que, seguindo uma máxima paterna sobre se arriscar nas conquistas, se ofereceu para trabalhar com todos os nomes que hoje pairam em seu universo profissional, mas sempre pairaram em seu infinito particular como influências que moldaram a forma do ator e dramaturgo produzir sua própria arte.

“Me movem as perguntas. Os anseios. Os medos, que no papel tomam forma e não parecem mais tão aterrorizantes. E a vontade de entender alguma parte do mundo que ainda é mistério para mim. Os mistérios, esses são sempre combustíveis ótimos para uma criação. Não que precisamos desvendá-los com respostas contundentes, mas, por vezes, só dizer sobre eles, atestar que eles existem, isso já é o suficiente”, finaliza

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