Domingos de Oliveira - Foto: Divulgação
Domingos de Oliveira - Foto: Divulgação

Quando saiu de cena em 23 de março de 2019, aos 82 anos, vítima de insuficiência respiratória, o diretor, dramaturgo, ator e cineasta Domingos de Oliveira já experimentava inexplicável silêncio das principais plataformas de streaming, que não tinham em seu catálogo nem sombra das obras criadas pelo artista ao longo de mais de cinquenta anos. Desde clássicos como seu primeiro filme, Todas as Mulheres do Mundo (1966), até títulos recentes como Os 8 Magníficos (2017), sua última produção, todos os filmes foram esnobados pelas grandes e médias plataformas.

Um ano e um mês após sair de cena, parte deste silêncio é reparado com o lançamento da série Todas as Mulheres do Mundo, de Jorge furtado, que tem como base alguns textos do autor. Com estreia agendada para hoje na plataforma Globo Play, a série traz histórias como as de Largando o Escritório, Separações e Amores, entre outros.  Entretanto, boa parte da obra de Domingos segue inédita para novas gerações, que talvez não tenham ideia de que, além de cineasta, era também grande autor e diretor de teatro.

Muitas de suas peças foram adaptadas para o cinema. Entre os títulos estão Amores (1996) Separações (2000), Largando o Escritório (2006, adaptada por Claudio Torres em 2008 com o título de A Mulher do meu Amigo) e Do Fundo do Lago Escuro (peça originalmente montada em 1980 com o título Assunto de Família e reencenada pelo Grupo Tapa em 1997 com o novo título. A obra chegou ao cinema em 2012 com o título de Infância, sob a direção do próprio Domingos). A maioria, disponível – quando disponível – apenas no Youtube em qualidade sofrível.

Outra falta sentida é a dos registros dos espetáculos do diretor online.No momento em que o teatro filmado ganha nova dimensão e importância frente ao cenário de pandemia causado pelo novo COVID-19 (Coronavírus), é pena que não existam registros integrais de espetáculos escritos, dirigidos ou mesmo estrelados por Domingos.

Embora soubesse – como todos – que o teatro é uma arte presencial e insubstituível, o artista sempre abraçou novidades acreditando na democratização da arte e na renovação do público e de seus interesses frente a arte milenar. É, portanto, indesculpável o fato de Domingos não figurar também no catálogo de novas plataformas que buscam a valorização de certa memória teatral, disponibilizando obras na íntegra.

Não seria impossível que peças como Do Fundo do Lago Escuro, registrada na íntegra em sua montagem de 2010, dirigida pelo autor e protagonizada por nomes como Paulo Betti e Priscilla Rozenbaum, além do próprio Domingos no papel de Dona Mocinha (vivida anteriormente por Beatriz Segall e posteriormente por Fernanda Montenegro, no cinema) fossem disponibilizadas.

Outro ponto importante a se levantar é o silêncio editorial frente às obras do autor, muitas ainda inéditas em livro, tal qual sua autobiografia Vida Minha (2014), há muito fora de catálogo. Domingos merece mais.