OPINIÃO: Convidado a assumir cargo no governo, Roberto Alvim trai próprias convicções

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Diretor e ator que ganhou destaque no final da década passada por encenações produzidas por sua companhia, Club Noir, formada ao lado da atriz Juliana Galdino, Roberto Alvim chegou bem próximo a uma unanimidade frente a crítica e ao público frequentador do teatro paulistano, como bem sublinhado por Dirceu Alves em seu blog Na Plateia, no site da revista Veja São Paulo, em entrevista com o diretor publicada ontem, 16.

Contudo, o consenso se voltou contra o diretor após o
anúncio de seu apoio irrestrito ao então candidato à presidência da República
Jair Messias Bolsonaro, nas eleições de 2018. Alvim vinha de uma experiência de
quase morte, quando descobriu um tumor no intestino que o deixou em coma em
2017, e, ao sobreviver, se converteu ao cristianismo e ao conservadorismo
político.

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O diretor passou a compartilhar das ideias do ex-astrólogo Olavo de Carvalho e do então candidato Jair Bolsonaro, o que lhe rendeu uma série de críticas do setor considerado de esquerda, e ao se distanciar de seu antigo posicionamento político, traduzido através de sua montagem considerada antológica para a adaptação do romance Leite Derramado (2016), de Chico Buarque de Holanda, Alvim aponta para um caminho não muito destoante de nomes como Lobão e o cantor e compositor Roger Moreira, vocalista da banda Ultraje a Rigor.

A principal diferença é que, embora se sentissem prejudicados por seu posicionamento contra os governos de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (ambos do Partido dos Trabalhadores), Lobão e Roger vinham construindo obra irregular desde a década de 1990. O autor de Me Chama (1984), por exemplo, não bisou a genialidade de baladas e rocks saborosos como Decadence Avéc Elegance (1985), Canos Silenciosos (1986) ou Corações Psicodélicos (1984), para citar apenas alguns clássicos criados ao longo da década de 1980.

Alvim, por sua vez, seguiu na construção de espetáculos relevantes, como a unânime montagem de Kiev (2017), do uruguaio Sérgio Blanco, e sua encenação para Todos que Caem (2018), de Samuel Beckett. Contudo, desde que anunciou sua posição favorável ao governo de Jair Bolsonaro, o diretor vem se sentindo perseguido e impedido de fazer seus espetáculos nos espaços que fazia antes.

E aí mora o ás da questão. Como relatado em suas redes
sociais, o diretor recebera um convite para fazer parte do governo Bolsonaro,
em cargo já aceito e ainda não revelado. Alvim, contudo, parece trair as
próprias convicções aventadas ao longo não apenas da campanha, mas também de
sua carreira. Ao se colocar contra o sistema e o uso dele para o subsídio do
trabalho de profissionais específicos, se põe no mesmo lugar e destoa de seu
tom de transgressão independente.

Sem os editais e a parceria com a rede Sesc SP, o diretor
limitou seu trabalho, se recusando a seguir em frente com novas encenações pela
falta do que considera subsídios que lhe são de direito. Alvim se vê agora
posto frente a frente com a realidade de uma série de Companhias e grupos paulistanos
que não apenas não conseguem contar com editais, como também não têm parcerias que
permitam a realização de suas empreitadas. Porém, sobrevivem.

Ao assumir cargo no governo Bolsonaro, o profissional
comprova a impossibilidade de sobreviver no teatro sem o subsídio que também
falta a companhias menores, que seguem, numa concepção geral, resistindo. A
despeito de seu trabalho inegavelmente apreciado pela crítica especializada,
Alvim comprova que a nível de produção, não consegue fazer de sua arte o mote
financeiro que, por exemplo, manteria aberta a sede de seu Club Noir, que volta
a correr risco de encerrar suas atividades por problemas com o aluguel.

Falta a Alvim a expertise da sobrevivência artística, que, muito criticada por setores do novo governo, não dependem – ou jamais dependeram – de subsídios ou de leis de incentivo. Mas sempre sobreviveram. Ao aceitar cargo para sobreviver, Roberto Alvim trai não apenas seu discurso, mas também todo o trabalho construído até o momento.

As opiniões expressas neste artigo são de total e completa responsabilidade de seu autor.

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