Rasa, comparação entre espaços teatrais e aviões não estimula debate e atesta contra cultura das artes
Rasa, comparação entre espaços teatrais e aviões não estimula debate e atesta contra cultura das artes

Montagem que põe lado a lado a imagem do interior de um avião cheio (com pessoas sentadas lado a lado e usando máscaras) com a do interior de um teatro com poltronas vazias tem ganhado espaço e cada vez mais repercussão na classe teatral nos últimos dias, principalmente após postagem do diretor teatral Charles Möeller, no qual, ironicamente, tece críticas às medidas que prevêem o fechamento de equipamentos culturais como meio de não disseminação e contágio do novo Coronavírus.

“Acho que tem pesos e medidas bem erradas nessa receita ou tem algo de podre no Reino da Dinamarca, ou estou com síndrome de perseguição?” escreve o diretor. Möeller não foi o único a contestar a validade da liberação que permite que pessoas viagem de avião, mas não frequentem o teatro ou compareçam a shows, exposições e outros eventos ligados a cultura das artes.

Embora completamente compreensível, a indignação de parte da classe artística – principalmente a teatral – na verdade não contribui para o debate sobre o sucateamento e a falta de incentivo às artes no Brasil num processo que vem de muitas décadas, mas se intensificou nos últimos anos desde a primeira extinção do Ministério da Cultura no governo de Michel Temer (MDB), em medida posteriormente revogada, e na transformação da pasta em Secretaria sob o guarda-chuva do Ministério da Cidadania (já transferia para o Turismo) no governo do atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido).

Com alta rotatividade, o cargo na Secretaria da Cultura não foi ainda ocupado por figura que propusesse não apenas uma política pública com viés democrático de incentivo à arte (diferente do projeto de valorização de uma “arte conservadora”, proposta pelo ex-secretário Roberto Alvim, exonerado após discurso com menções nazistas), mas também tivese plano de auxílio à classe em momento de pandemia que, como se sabe, afetou diretamente a um setor que, por sua essência, trabalha com a aglomeração como diapasão para um projeto bem sucedido.

Embora com um nome já escolhido e devidamente nomeado (o ator e apresentador Mário Frias), a pasta da cultura segue à deriva num processo de letargia estabelecido na gestão anterior, da atriz Regina Duarte (exonerada após desastrosa entrevista à CNN na qual relativizou as mortes e torturas no período de Ditadura Militar no Brasil).

Por este e outros motivos, a divulgação ampla de uma comparação rasa como a da imagem é prejudicial para o discurso e até para a manutenção da cultura das artes frente à opinião pública, uma vez que dar a entender que um teatro deva ser aberto ao público uma vez que as viagens de avião o são soa entre o egoísta e o irresponsável.

Com números de vôos reduzidos e com companhias aéreas fazendo trajetos cada vez menores e mais raros – principalmente no campo internacional -, os vôos são compreendidos como meios de transporte. Não fossem essenciais, cometeriam infração grave ao pôr em risco a vida e cidadãos visando lucro nas viagens, portanto equivocados. Não é possível que se acredite que este equívoco deva ser repetido em salas de teatro.

É irresponsável acreditar que o fato de shoppings estarem abertos em boa parte das grandes metrópoles avaliza a abertura de teatros e espaços culturais num momento em que a curva de contaminações e mortes causados pela Covid-19 apenas sobe. É como pedir para ser culpado pelo mesmo erro crasso da cultura do capitalismo desenfreado. Uma vez dentro dessa estatística, a cultura das artes, já combalida frente a parte da opinião pública, que a acredita supérflua, só tem a perder.

Ainda que afetando a vida de trabalhadores que dependem das bilheterias dos espetáculos para se sustentar, um movimento para a rápida retomada dos espaços culturais é temerária e equivocada. É preciso que se tenha a plena consciência de que, num momento de pandemia como este, a obrigação do cidadão é de cobrar os direitos que devem ser garantidos pelo poder público, mesmo com viés ideológico voltado ao liberalismo e secamento da Máquina Pública e do Estado. 

Esta é a obrigação legal do Estado que vem sendo ignorada com ações como a demora para a sanção (ou veto) da Lei Aldir Blanc (PL 1075), que propõe o pagamento de um auxílio emergencial para a classe artística e os espaços culturais e terá seu prazo de análise expirado no dia 30 de junho, terça-feira, e a não liberação imediata do Fundo Nacional de Cultura para ajudar na contenção da crise.

GUERRA IDEOLÓGICA

Encabeçada pelas deputadas federais Jandira Feghali (PCdoB) e Benedita da Silva (PT), a Lei Aldir Blanc vem encontrando resistência de parte da classe artística por ter sido proposta por duas figuras comumente ligadas a movimentos de viés ideológico de esquerda. Em grupos de produtores e artistas, tem havido grandes discussões sobre aderir ou não ao movimento #SancionaPL1075, que visa criar, nas redes socais, pressão popular para a sanção do projeto de lei pelo Palácio do Planalto.

Parte dos produtores e artistas acredita se tratar de uma ação sem legitimidade por ter à frente deputadas ligadas a causas com as quais não concordam, o que vem, de alguma forma, enfraquecendo a campanha e a importância de Lei que visa prestar auxílio a uma classe, como dito anteriormente, à deriva e patinando nas políticas públicas – como exemplo a Lei 6.737/2020 enviada pelo prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (Republicanos) e aprovada às pressas pela Câmara dos Vereadores, retirando da Cultura o 1% da arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS) para o fomento de projetos culturais na cidade.

Portanto, ainda que haja o desejo legítimo de que os espaços culturais voltem a funcionar a pleno vapor, a discussão rasa da comparação depõe contra a class, levantando dois fatores importantes: a não certeza do retorno do público, que tem se arriscado em shoppings, praias e praças, mas não são necessariamente os mesmos frequentadores de teatros; e a possível mancha na imagem da cultura das artes.