O Governador de São Paulo João Dória - Foto: Divulgação
O Governador de São Paulo João Dória - Foto: Divulgação

Com o anúncio de que teatros e espaços culturais como cinemas, museus e casas de shows deverão ter o aval para a reabertura antes do previsto na política de contenção da pandemia do novo Coronavírus, a classe artística começou a se movimentar e se dividir entre produtores e artistas que se preparam para o retorno, ou prevêem um tempo maior fora de cartaz.

A previsão anterior de reabertura para espaços de cultura seria para a chamada “fase azul”, a mais branda dentro da contenção da crise de saúde pública da gestão do governador João Dória (PSDB). O anúncio oficial dividiu a classe entre os que celebram o afrouxamento da medida, e os que acreditam se tratar de uma irresponsabilidade.

Para André Acioli, produtor e gestor dos teatros Vivo e Eva Herz, o anúncio é positivo por dar um “horizonte” para a classe artística. “Temos uma diversidade muito grande na nossa cidade, então ter uma decisão como essa, de saber um horizonte de quando poderemos reabrir, pode tornar mais fácil que algumas pessoas se programem. Há ainda muitas ressalvas, mas a gente começa a ter um horizonte”.

Parecido pnsa o produtor musical Fran Carlo, dono do selo Conexão Brasil que traz no currículo o trabalho com nomes como Peninha, Selma Reis (1960-2015), Maria Alcina, Vânia Bastos, Rafa Castro e João Suplicy. “Eu acho a reabertura antecipada desses espaços culturais é boa, porque as pessoas precisam trabalhar e produzir”, garante o produtor que faz uma ressalva: “o público ficará constrangido de ir aos espaços por causa do vírus”.

Fundador e gestor do Espaço Cia da Revista, que lançou há pouco campanha de arrecadação para poder se manter aberto, Kleber Montanheiro vê o processo com mais parcimônia: “Queremos os espaços abertos, pulsando arte e cultura, mesmo porque eles não sobrevivem de portas fechadas. Mas temos que pensar com responsabilidade e de uma forma onde as pessoas estejam seguras e tranqüilas. Não faz sentido essa celebração acontecer com distanciamento, prejudicando a comunicação e a comunhão com a obra”, avalia.

O anúncio de reabertura dos espaços culturais dá prosseguimento a abertura de shopping centers, bares e o comércio em geral. O plano da gestão de João Dória, contudo, ignora que no Estado de São Paulo tem ainda curva crescente de contaminações pelo novo Coronavírus, tendo ultrapassado a marca de 300 mil casos de contaminação, e acordo com dados divulgados ontem, 02, em reportagem publicada pelo Uol Saúde.

A reabertura neste cenário configura mais um caso de descaso com o mercado artístico, é o que acredita a produtora envolvida com o movimento cultural das periferias na zona sul de São Paulo, Bruna Burkert: “Reabrir os espaços culturais antes que seja seguro é reafirmar o descaso de tantos anos com as atividades culturais, usando a lógica mercadológica como desculpa para mais uma omissão. Os artistas precisam de subsídio para que continuem existindo, no momento qualquer proposta diferente por parte do poder público é mal intencionada”.

A notícia também vem de encontro com proposta encaminhada ao Fórum Nacional dos Secretários de Cultura pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo que sugeriu que 15% dos recursos ficassem retidos pela pasta como “taxa administrativa” para encaminhar os recursos que partissem da Secretaria. As informações são do blog Farofafá, da Carta Capital.

A discussão tomou conta de grupos de produtores no What’s App e em fóruns no Facebook que, em suma, acreditam que, com a liberação dos espaços culturais, a proposta da Lei Aldir Blanc perde força e compromete a distribuição do auxílio emergencial sancionado no último 29 de junho, além de colocar produções em risco por contar com uma incerteza ainda maior do público na plateia.

É como pensa o ator e produtor Eduardo Martini: “É óbvio que eu tô ávido para subir no palco, mas eu não acho que tenhamos educação o suficiente para nos organizar e termos a certeza de que não estamos infringindo nenhuma lei espiritual de infectar alguém. Eu acho que morreria de desgosto se eu soubesse que, por minha causa, alguém se infectou no teatro. Para quem perdeu quatro amigos, fra todas as outras pessoas, é muito temeroso”. 

Nas redes sociais, as opiniões divergem. Atores, técnicos e produtores se dividem em grupos que comemoram e criticam a decisão do Governo do Estado de São Paulo. A medida vem de encontro aos anseios de parte da classe que, nas últimas semanas, iniciou movimento de crítica à abertura de outros espaços em detrimento a teatros e cinemas.

Por outro lado, também atende as críticas do Governo Federal e, principalmente, do novo Secretário Especial da Cultural, Mário Frias, militante pela abertura dos espaços culturais, que chegou a comparar o auxílio emergencial da Lei Aldir Blanc a esmola.

É, contudo, unânime o receio da resposta do público. Para o produtor Valdir Archanjo, dono da ASA Produções, acredita ser uma decisão prematura. “Sabemos que o setor foi uma das atividades econômicas mais prejudicadas, e isso pra nós, produtores, artistas, técnicos e donos de teatros foi e está sendo um caos. É claro que todos necessitamos que essa situação mude o mais rápido possível, e que tudo volte à normalidade, mas ainda não é o momento. Mesmo a vigilância sanitária dando o Ok, temos que ser cautelosos e aguardar”.

O RETORNO EM OUTROS PAÍSES

Países como a Itália e a Alemanha anunciaram o retorno gradual de suas atividades culturais nos últimos meses. Em maio, o Teatro Berliner Ensemble, em Berlim, divulgou a nova configuração de seus assentos atendendo às restrições de distanciamento social para que não houvesse nova curva ascendente de casos de Coronavírus na cidade.

Já o Teatro Menotti, em Milão, na Itália, diminuiu substancialmente a capacidade de sua sala principal após três meses de lockdown completo, e instituiu novas regras de acesso, com mostrou a jornalista Fabiana Seragusa em seu portal Culturice Viagem.