Incapazes de seguir o fluxo do tempo, prêmios saem de 2020 enfraquecidos com ranço anacrônico

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É inegável que, no Brasil, a classe teatral – já acostumada a tentar sobreviver em meio ao caos e aos seguidos apagões culturais que, geralmente, o poder público impõe ao mercado da cultura das artes – foi a que melhor se adaptou à nova linguagem online imposta pela necessidade de sobrevivência artística e financeira de artistas, grupos e companhias teatrais em meio a pandemia que congelou o mercado ao redor do mundo.

Centenas de espetáculos foram idealizados, desenvolvidos e encenados em 2020 utilizando de facilitadores tecnológicos, que garantiram não apenas sua existência, mas a possibilidade de democratização da produção e do acesso de uma parcela maior do público, pouco acostumado ao teatro, seja por questões econômicas ou culturais.

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Neste formato, grandes espetáculos se formaram ao longo do ano, entre eles obras do quilate de Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt, Peça, A Arte de Encarar o Medo e Parece Loucura, mas há Método, enquanto outros títulos, montados no palco, foram transmitidos, possibilitando um alcance maior de público, como O Pior de Mim e toda a Mostra de Repertório Online do Grupo Tapa.

Não seria equivocado acreditar que, desta forma, a classe teatral não apenas conseguiu uma pseudo sobrevivência financeira em ano catastrófico, mas desenvolveu e expandiu linguagens que potencializaram a comunicação com o público. Desde comédias populares, como Presente de Grego, até dramas introspectivos, como O Desmonte, todos se lambuzaram das possibilidades tecnológicas do online.

Mas quem não acompanhou essa evolução foram as premiações que, ao longo do ano, congelaram suas atividades, como se o próprio teatro estivesse congelado ou fora de cena. Quando, na verdade, o que aconteceu foi o contrário. Ainda que não haja motivos para celebrar, as produções teatrais se intensificaram – mesmo que uma parcela (cada vez menor) de puristas alegue que os experimentos cênicos online não possam ser caracterizados como teatro. 

Premiações clássicas, como o Prêmio Shell e o APCA, praticamente desapareceram neste 2020, ainda que pese a excelente ação da diretoria do Shell – um dos mais importantes do mercado desde a extinção do Prêmio Moilière – ao doar o dinheiro captado de patrocínio para o Fundo Marlene Collé, em apoio aos trabalhadores do teatro.

A premiação da Associação Paulista de Críticos de Arte, por sua vez, se manteve congelada e silenciosa, engrossando o coro mudo das premiações que escolheram não acompanhar ou laurear as produções postas em cena no primeiro semestre antes da pandemia (entre eles, De Todas as Maneiras que há de Amar e Por que não Vivemos?, dois grandes títulos deste ano), nem tampouco os produzidos no palco, mas com transmissão online no segundo semestre (como Para Duas e Pós-F, apenas para citar dois).

É verdade, contudo, que o mercado dos prêmios sofreu duas baixas importantes neste 2020. A saída de cena do crítico de arte Michel Fernandes (1975-2020) paralisou o Prêmio Aplauso por tempo indeterminado, impedindo a continuidade de um trabalho iniciado pelo profissional, que pretendia laurear espetáculos online.

No Rio de Janeiro, a prisão do produtor  e idealizador do Prêmio Botequim Cultural, Renato Mello, jogou dúvidas sobre a possibilidade de uma nova edição da premiação, embora também não houvesse aceno da produção e corpo de jurados para uma possível apreciação das produções online. O mesmo se pode dizer de prêmios como Cenym e Cesgranrio.

Neste 2020, ano em que o teatro precisou se modificar  adaptar para sobreviver, é interessante notar o anacronismo com o qual agem as principais premiações do eixo Rio-São Paulo frente às metamorfoses do mercado, provando que, no frigir dos ovos, já é hora de uma renovação nestes prêmios, que, enfraquecidos, se mostraram incapazes de seguir o fluxo do tempo.

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